Tarifa dos EUA exige revisão do caixa e do planejamento no campo, diz Fausto Ribeiro

Por: Rogério Cabral

As tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros já começam a exigir mudanças no planejamento financeiro de parte do agronegócio.

Segundo ele, as tarifas inicialmente anunciadas em 25% já representam um impacto estimado de R$ 4,6 bilhões para o agro brasileiro. A sobretaxa de 12,5%, entretanto, precisa ser analisada com mais calma.

Três medidas imediatas para o produtor

Na avaliação de Ribeiro, produtores inseridos nas cadeias afetadas devem adotar três medidas prioritárias.

A primeira é mapear com precisão o grau de exposição ao mercado americano. Isso inclui identificar quanto da receita depende, direta ou indiretamente, das exportações para os Estados Unidos, seja por meio de cooperativas ou tradings.

O especialista também recomenda verificar a existência de contratos de venda futura ou de Cédulas de Produto Rural (CPRs) firmados antes da imposição das tarifas, já que a nova realidade pode alterar significativamente as condições esperadas de comercialização.

Revisão do fluxo de caixa

A segunda orientação é revisar o fluxo de caixa dos próximos 12 meses considerando um cenário mais conservador.

Segundo Ribeiro, produtores das cadeias atingidas devem simular uma redução entre 10% e 15% nas cotações em relação ao planejamento inicial e avaliar se o nível atual de endividamento suporta esse cenário.

Caso a resposta seja negativa, a recomendação é buscar assessoria financeira antes que ocorram atrasos nos pagamentos.

Alternativas para reduzir impactos no campo

O especialista em crédito rural destaca que algumas alternativas já começam a surgir para reduzir os efeitos das tarifas.

Entre elas estão as negociações diplomáticas para buscar exceções em produtos como etanol e madeira. No mercado interno, ele cita a proposta de elevar a mistura obrigatória de etanol na gasolina, de 27% para 35%, como uma forma de absorver parte da produção destinada aos Estados Unidos.

Outra possibilidade é ampliar o redirecionamento das exportações para outros mercados, especialmente a China, que já responde por uma parcela significativa das compras do agronegócio brasileiro.

Atenção para quem renegociou dívidas

Ribeiro faz um alerta específico aos produtores que renegociaram financiamentos recentemente com base em projeções de receita anteriores às tarifas.

Segundo ele, caso a queda nos preços comprometa o fluxo de caixa previsto, o ideal é procurar as instituições financeiras para reavaliar o plano de pagamento antes que ocorram inadimplências.

Impactos variam entre as cadeias

Na avaliação do colunista, nem todos os setores sentirão os efeitos da mesma forma.

Ele cita café, carnes e suco de laranja entre as cadeias menos afetadas ou isentas, recomendando que esses produtores concentrem esforços em preservar as margens atuais.

Já para os segmentos diretamente atingidos pelas tarifas, a orientação é reforçar o planejamento financeiro e acompanhar de perto os movimentos de compensação que podem surgir nos mercados interno e externo.

“O agro brasileiro tem escala, eficiência e capacidade de redirecionar sua produção. Mas essas qualidades só funcionam para quem age com segurança e informação”, conclui Ribeiro.