‘Quero morrer Chico Bento’: a frase de Almir Sater que faz a sociedade repensar o que é ser caipira

Por: Rogério Cabral

Tem uma palavra que durante muito tempo foi usada de forma pejorativa: o termo caipira. Em conversa com o Soja Brasil, Almir Sater afirma que ser caipira é, simplesmente, ser “morador do mato” e deixa claro que não enxerga vergonha alguma nisso. Pelo contrário, o cantor diz ter orgulho e honra em se considerar caipira e destaca a vida próxima ao ar puro, aos pássaros e à natureza como uma das maiores riquezas do interior.

“Ser caipira é ser morador do mato”, comenta Sater, deixando claro que, para ele, o termo está muito mais ligado a uma forma de viver do que aos estereótipos que durante anos foram associados à palavra. A declaração ganha ainda mais peso porque Sater conhece de perto a realidade do campo e trabalha com integração lavoura-pecuária, unindo culturas como soja e milho à criação de gado.

Para o artista, o caipira carrega conhecimentos e valores que poderiam servir de inspiração para toda a sociedade. Sater também defende cada vez mais a preservação das matas e afirma que o homem do interior tem muito a ensinar quando o assunto é conservação. Na visão do cantor, enquanto grandes cidades convivem com poluição e um distanciamento cada vez maior da natureza, o caipira mantém uma relação direta com aquilo que existe de mais bonito no Brasil.

E essa identidade aparece ainda na viola caipira, instrumento que Sater transformou em uma das grandes marcas de sua trajetória. Segundo o artista, basta ouvir o som da viola para ser transportado “para o interior do Brasil”, para uma mata virgem e para perto de um riacho cristalino. Para ele, a viola caipira é muito mais do que um instrumento musical e representa “uma verdadeira bandeira brasileira”.

Suas músicas também eternizaram imagens do campo, da boiada e do velho boiadeiro que enfrenta a longa estrada da vida, retratando simplicidade, sabedoria, trabalho e uma maneira diferente de enxergar o mundo. A palavra caipira, porém, está longe de ter o mesmo significado para todo mundo e continua despertando diferentes interpretações entre quem vive no campo e quem acompanha de fora essa realidade.

O caipira dentro do coração

O agricultor ainda carrega um estereótipo construído ao longo dos anos, segundo Ricardo Nicodemos, presidente da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (ABMRA) e convidado do Radar Rural. Ele lembra que personagens como Jeca Tatu e Chico Bento ajudaram a criar uma imagem simplificada do homem do campo, estereótipo que ainda aparece em situações como as festas juninas escolares. “Essa imagem não existe”, afirma.

Ireneu Orth, produtor de soja e presidente da Aprosoja Rio Grande do Sul, afirma que o agricultor atual não se encaixa mais no antigo estereótipo. Para Orth, o produtor rural de hoje tem formação, conhecimento, tecnologia e acesso à informação, com muitos agricultores possuindo até curso superior.

Ao mesmo tempo, Orth reconhece que o termo pode carregar preconceito quando é usado para diminuir alguém. Por isso, comenta que prefere não chamar outras pessoas de caipiras, justamente para evitar que a expressão seja interpretada de forma ofensiva. Para ele, a realidade do campo mudou e o produtor rural passou a ocupar um espaço cada vez mais ligado à tecnologia e ao conhecimento.

Preconceito e orgulho

No fim, a discussão mostra que o caipira de hoje está muito distante da imagem de atraso que ainda aparece em alguns estereótipos. Ele pode estar diante de uma lavoura de soja, conduzindo uma boiada, preservando uma mata, tocando uma viola ou usando tecnologia para produzir mais e melhor.

A origem do Brasil está profundamente ligada ao agro, ao rural e ao caipira, como destaca Ferreira, que defende esse legado como motivo de orgulho e não de desprezo. Para ele, carregar as raízes do interior significa preservar valores que continuam presentes na vida de milhões de brasileiros e que ajudaram a construir a identidade do país.

E é justamente aí que surge a frase capaz de resumir toda a provocação dessa história. Se ser caipira significa carregar os valores do trabalho, da simplicidade, da natureza e das raízes brasileiras, Ferreira afirma que quer “morrer Chico Bento”. A frase transforma o que já foi motivo de preconceito em uma declaração de orgulho sobre as próprias origens.