Quem vai alimentar 10 bilhões de pessoas em um clima que mudou?

Por: Renato Rodrigues

*Por Renato Rodrigues, PhD — Professor Associado da Fundação Dom Cabral e Diretor de Negócios da Capital Agro Investors

Cada refeição que chega à mesa percorre uma cadeia que envolve bilhões de decisões — do solo ao prato, passando por sementes, fertilizantes, logística e distribuição. Quando perguntamos quem vai alimentar 10 bilhões de pessoas em 2050, estamos fazendo uma pergunta técnica, geopolítica e climática ao mesmo tempo. E a resposta aponta, de forma cada vez mais inequívoca, para o Brasil.

Mas antes de celebrar essa posição, é preciso entender o ambiente em que ela será exercida.

O problema não é só o aquecimento. É a instabilidade.

A narrativa dominante sobre mudança do clima na agricultura foca no aumento de temperatura. É um recorte insuficiente. O que os dados do IPCC AR6 e do WMO State of Climate 2024 revelam é um sistema climático em crescente instabilidade: ondas de calor mais frequentes em regiões produtoras, veranicos fora dos padrões históricos de distribuição e chuvas com janelas de plantio cada vez mais comprimidas.

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Isso tem uma consequência direta para o planejamento agrícola: as séries históricas de clima — base de toda a tomada de decisão agronômica — estão perdendo poder preditivo. O risco produtivo passou de conjuntural para estrutural.

A revolução que ninguém apostava — e o que ela significa

Entre 1983 e 2024, o Brasil passou de 50 milhões de toneladas de grãos produzidos para 322 milhões. A área cultivada cresceu 96%; a produtividade, 286%. Estima-se que 150 milhões de hectares foram poupados da conversão. Isso não foi sorte geográfica. Foi o resultado de décadas de pesquisa aplicada especificamente para solos tropicais intemperizados — solos que, não por acidente, ninguém acreditava ser agricultáveis nos anos 1970.

Esse conhecimento é hoje o ativo estratégico mais subestimado do agronegócio brasileiro.

O Brasil é emissor. E é exatamente isso que cria a oportunidade.

Há uma tensão que o setor precisa encarar com honestidade. O Brasil é o quinto maior emissor global, responsável por 3,1% das emissões mundiais. Agropecuária e mudança de uso da terra respondem juntos por 74% das emissões brasileiras. Ignorar isso é desonesto. Mas tratá-lo apenas como constrangimento é estrategicamente equivocado.

O contexto das negociações internacionais — da Rio-92 ao Acordo de Paris, do Plano ABC ao SBCE aprovado em 2024 — construiu uma arquitetura regulatória que transforma essa realidade em oportunidade. A COP30, realizada em Belém, colocou o agro brasileiro sob escrutínio global como nunca antes. A pergunta que o mundo fez não foi retórica: o setor é parte do problema ou parte da solução? A resposta vai continuar moldando acesso a mercados, financiamento climático e reputação do setor pelos próximos anos.

A fome do mundo vai crescer onde o Brasil já sabe produzir

Até 2050, a demanda alimentar global deve crescer 50%. Esse crescimento se concentra de forma desproporcional na África Subsaariana (+130%), no Sul da Ásia (+50%) e no Sudeste Asiático (+40%) — exatamente as regiões tropicais e subtropicais onde o clima é instável, o solo é intemperizado e a fertilidade precisa ser construída ativamente.

Dois em cada três habitantes do planeta viverão em zonas tropicais ou subtropicais em 2050. O Brasil não é apenas um produtor global com escala. É o único país que desenvolveu tecnologia agrícola especificamente para esse ambiente.

180 milhões de hectares degradados. A maior oportunidade climática do planeta.

O Brasil tem hoje aproximadamente 180 milhões de hectares de pastagens degradadas — uma área equivalente à França e à Ucrânia somadas. Desse total, 27,7 milhões de hectares têm potencial de recuperação imediata. São 239 milhões de cabeças de gado produzindo abaixo do potencial.

Recuperar essas pastagens não é um projeto ambiental. É um projeto produtivo com co-benefício climático comprovado: mais carne e grãos na mesma área, sequestro de carbono em escala e ROI positivo para o produtor. O Plano ABC+ estabelece uma meta de redução de 1,1 GtCO₂eq até 2030 por meio de seis tecnologias — todas com retorno econômico documentado. É o único plano climático nacional do mundo em que sustentabilidade e produtividade não são objetivos concorrentes. São a mesma coisa.

O nitrogênio não é apenas um nutriente. É uma variável climática.

Para produzir mais em um clima que mudou, é preciso repensar toda a cadeia de insumos. Solos tropicais são altamente intemperizados: baixa capacidade de troca catiônica natural, baixa reserva de nutrientes, alta lixiviação. A fertilidade aqui não é um dado do ambiente — ela é construída. Isso significa que a produtividade da agricultura tropical depende estruturalmente da gestão de nutrientes.

Mas há uma dimensão climática nessa equação que ainda é subestimada. O óxido nitroso (N₂O) tem potencial de aquecimento global 273 vezes maior que o CO₂ em um horizonte de 100 anos. A principal fonte agrícola de N₂O é o nitrogênio não absorvido pela planta — seja por hidrólise acelerada da ureia em condições tropicais, seja por perdas de volatilização e lixiviação. Tecnologias de liberação gradual e inibidores de nitrificação mudam fundamentalmente esse equacionamento: sincronizam a disponibilidade de nitrogênio com a demanda real da planta, aumentam a eficiência de assimilação radicular e reduzem expressivamente as emissões de N₂O.

Sem gestão de fertilidade, não existe o agro que alimenta o mundo. Isso não é argumento de vendas. É geoquímica.

A transição não acontece no laboratório. Acontece no campo.

A tese central é esta: a agricultura tropical não é a causadora nem a vítima da mudança do clima. Ela pode ser protagonista da solução — combinando segurança alimentar, estabilidade climática e desenvolvimento econômico em sistemas produtivos integrados.

Mas essa posição estratégica não se converte em resultado sozinha. Ela precisa de uma cadeia inteira operando com visão de sistema. E a transição não acontece nos laboratórios de pesquisa nem nas mesas de negociação internacional. Ela acontece em uma visita técnica. Em uma recomendação de manejo. Em uma decisão sobre qual produto usar, como usar e quando usar.

Cada conversa com um produtor é um ato de transição. Quem ocupa essa posição na cadeia não exerce um papel secundário. Exerce um papel histórico.

Renato Rodrigues é biólogo e geoquímico ambiental, com pós-doutorado em Sistemas de Gestão Sustentável. É Diretor de Negócios da Capital Fertilizantes, Professor Associado da Fundação Dom Cabral e coordenador do Tropical Food Systems Strategy Lab. Foi negociador do governo brasileiro em COPs e co-autor do Plano ABC.