Depois de enfrentar um período de forte pressão sobre a rentabilidade, a cadeia leiteira de Santa Catarina começou a dar sinais de recuperação em 2026. A melhora no preço pago ao produtor trouxe alívio para o campo e voltou a estimular investimentos nas propriedades. Apesar disso, representantes do setor alertam que o cenário ainda exige cautela diante do avanço da captação de leite e da concorrência de produtos importados.
Em Chapecó, no oeste catarinense, a família Araújo produz leite há mais de 20 anos. A propriedade reúne cerca de 150 animais, sendo 81 em lactação, com produção diária próxima de 3 mil litros. O resultado, segundo os produtores, é fruto de investimentos contínuos em genética, sanidade e melhoramento do rebanho.
O produtor José Araújo afirma que 2025 foi marcado por dificuldades, com custos elevados e queda na remuneração pelo leite. A situação começou a mudar no início deste ano.
“De fevereiro para cá, nós já tivemos um alento, começou a subir o preço do leite. Nós passamos a receber um pouco mais pelo nosso produto e conseguimos, devagarzinho, dar a volta”, relata.
Atualmente, a propriedade recebe cerca de R$ 2,80 por litro, valor superior ao registrado no começo do ano. Segundo Araújo, a recuperação voltou a incentivar melhorias na atividade.
“Quando a gente tem um preço melhor, o produtor acaba investindo, melhorando o plantel e os equipamentos. Isso é um motivador.”
Captação cresce e pode pressionar preços
A recuperação também aparece nos indicadores do setor. No primeiro trimestre de 2026, Santa Catarina registrou aumento de 6% na captação de leite em comparação com o mesmo período do ano passado.
De acordo com a assistente de pesquisa da Epagri/Cepaf, Emile D. R. Santana, a melhora resulta de uma combinação de fatores.
Entre eles estão o equilíbrio entre oferta e demanda, a boa produção de silagem na safra anterior, a demanda estável por produtos lácteos e a capacidade da indústria de absorver o aumento da produção.
Ao mesmo tempo, ela faz um alerta. “Estamos observando uma alta captação e existe a possibilidade de ela pressionar os preços pagos ao produtor”, afirma Santana.
Importações seguem como principal preocupação
Embora o momento seja mais favorável, o setor acompanha com atenção o comportamento do mercado nos próximos meses. A principal preocupação é o aumento das importações de leite, especialmente de países vizinhos.
Segundo o presidente do Sindicato das Indústrias de Laticínios de Santa Catarina (Sindileite-SC) e do Conseleite-SC, Selvino Giesel, a comprovação de práticas de dumping por parte de Uruguai e Argentina, apontada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), ainda não resultou em medidas concretas do governo federal.
“Isso aumenta muito a oferta e acaba pressionando a indústria a reduzir os preços, repassando essa queda principalmente ao produtor”, disse Giesel.
Atividade é estratégica para a economia catarinense
A produção de leite é uma das principais atividades do agronegócio de Santa Catarina e tem forte peso na economia regional, especialmente no oeste do estado.
Segundo Giesel, Santa Catarina é o quarto maior produtor de leite do Brasil, e cerca de 80% da produção estadual está concentrada no Oeste. A atividade representa a terceira mais importante da agropecuária catarinense e movimenta mensalmente a economia de centenas de municípios.
“O leite faz a roda da economia girar. Precisamos que os governos estadual e federal olhem com carinho para essa atividade, que representa muito para Santa Catarina, especialmente para o Oeste”, afirma.