Por que as decisões ficaram mais difíceis no agronegócio?

Por: Renato Rodrigues

Por Renato Rodrigues

Se eu perguntasse a um produtor qual é o maior desafio da atividade hoje, provavelmente ouviria respostas como clima, custo dos insumos, mão de obra, juros ou preço das commodities. E todas elas estariam corretas.

Mas eu arriscaria dizer que existe um desafio ainda maior, que está por trás de todos esses: tomar boas decisões.

Pode parecer estranho. Afinal, nunca tivemos tanta informação disponível.

Hoje, qualquer produtor tem na palma da mão previsão do tempo, imagens de satélite, índices de vegetação, cotações em tempo real, aplicativos de manejo, inteligência artificial, consultorias especializadas e uma quantidade praticamente infinita de conteúdo técnico.

Então por que decidir parece cada vez mais difícil?

Na minha visão, porque o problema do agro deixou de ser falta de informação. O problema passou a ser o excesso dela.

Antigamente, muitas decisões eram relativamente simples. Plantava-se porque era a época de plantar. Adubava-se seguindo uma recomendação mais ou menos padrão. Vendia-se quando precisava fazer caixa. Hoje, a realidade é completamente diferente.

Uma decisão aparentemente simples, como escolher a data de plantio, pode depender da previsão climática, da disponibilidade de máquinas, do custo do fertilizante, do preço esperado da soja, da condição do solo, da logística da propriedade, do seguro rural e até da estratégia comercial da fazenda.

Tudo está conectado. E isso vale para praticamente todas as decisões dentro da porteira. É justamente aí que mora o desafio. Muita gente ainda acredita que mais tecnologia, por si só, resolve esse problema. Eu não concordo.

A tecnologia ajuda — e ajuda muito. Mas ela entrega dados. Quem toma a decisão continua sendo uma pessoa. E pessoas precisam transformar informação em entendimento. Vou dar um exemplo:

Imagine que três ferramentas diferentes mostram cenários diferentes para a mesma fazenda. Uma indica risco climático elevado. Outra aponta uma excelente janela de mercado. Uma terceira sugere alterar o manejo por causa da umidade do solo.

Qual delas está certa? A resposta é: talvez todas. O problema é que elas analisam pedaços diferentes da realidade. Quem precisa juntar todas essas peças continua sendo o produtor.

É por isso que, na minha opinião, o grande diferencial competitivo da próxima década não será quem tiver mais informação. Será quem conseguir conectar melhor as informações e transformá-las em boas decisões.

Percebo isso em praticamente todos os lugares por onde passo. Seja conversando com produtores, cooperativas, empresas, investidores ou formuladores de políticas públicas, a pergunta deixou de ser “onde encontro mais dados?”.

A pergunta passou a ser “como eu decido diante de tanta informação?”. E existe outro detalhe importante. No agro, decidir quase sempre significa assumir riscos. Ninguém sabe exatamente como será o clima daqui a quatro meses. Ninguém consegue prever com absoluta certeza o preço da soja na colheita. Ninguém sabe qual será a próxima mudança regulatória ou o próximo movimento do mercado internacional.

Esperar todas as respostas para só então decidir simplesmente não é uma opção. Quem espera a certeza normalmente perde o timing. Por isso, decidir bem não significa acertar sempre. Significa aumentar as chances de fazer a melhor escolha possível com as informações disponíveis naquele momento.

Essa talvez seja a mudança mais importante que estamos vivendo. O agro está deixando de ser uma atividade baseada apenas em produção para se tornar uma atividade baseada em gestão. Produzir bem continua sendo essencial. Mas produzir bem, sem conseguir tomar boas decisões de negócio, já não garante competitividade.

Na prática, isso significa integrar informações técnicas, econômicas, ambientais e comerciais em uma única visão. Significa olhar para a fazenda como um sistema, e não como uma coleção de atividades independentes.

No fim das contas, acredito que o futuro do agro não pertence a quem acumular mais dados. Pertence a quem conseguir fazer as melhores perguntas.

  • Que risco realmente importa?
  • Qual informação muda minha decisão?
  • O que é apenas ruído?

Essas perguntas talvez valham mais do que dezenas de novos relatórios ou aplicativos. O agronegócio brasileiro sempre se destacou pela capacidade de inovar. Agora, estamos entrando em uma nova fase. A inovação continuará sendo importante, mas ela precisará caminhar ao lado de algo que nem sempre recebe a mesma atenção: a qualidade das decisões.

Porque, em um mundo onde praticamente todos têm acesso às mesmas informações, a verdadeira vantagem competitiva talvez não seja produzir mais. Seja apenas decidir melhor.

*Renato Rodrigues é biólogo e PhD em Geoquímica Ambiental, com pós-doutorado em Sistemas de Gestão Sustentável. É Diretor de Negócios da Capital Fertilizantes, Professor Associado da Fundação Dom Cabral. Foi pesquisador da Embrapa, membro da UNFCCC e IPCC e co-autor do Plano ABC.