O poder de trocar o verbo: no campo, a mulher não “ajuda”, ela produz

Por: Rogério Cabral

Olá, queridas leitoras,

Em minhas andanças pelo interior paulista com as produtoras rurais, há uma frase que ouço com frequência: “Ah, Juliana, eu não trabalho na roça… eu só ajudo meu marido”.

Dita com timidez, essa fala carrega séculos de invisibilidade. Mas basta conversar alguns minutos para ver a realidade: ela acorda às cinco da manhã, cuida dos animais, prepara as refeições, controla as contas e, muitas vezes, opera máquinas e negocia insumos.

A pergunta que sempre devolvo é simples e fraterna: desde quando sustentar a engrenagem vital de uma propriedade chama-se “ajuda”?

As palavras têm poder. Elas delimitam o espaço que ocupamos no mundo e a forma como a sociedade nos enxerga. Chamar o trabalho diário de “ajuda” não é modéstia; é uma armadilha cultural que afasta a mulher de seus direitos fundamentais.

Segundo o IBGE, as mulheres comandam cerca de 19% dos estabelecimentos rurais no país — número bem maior quando somamos a cogestão diária. Já a FAO aponta que a igualdade de acesso a recursos e capacitação aumentaria a produção agrícola em até 30%. Sem se enxergar como produtora, contudo, a mulher deixa de assinar notas fiscais, acessar crédito rural e garantir sua segurança previdenciária. O setor inteiro perde com isso.

É para romper essa barreira que atua a Comissão Semeadoras do Agro da Faesp. Nossa missão é semear consciência, dignidade e autonomia para as mulheres do campo. Ao lado dos Sindicatos Rurais e do Senar-SP, levamos saúde preventiva e capacitação técnica, mas nosso maior impacto nasce do acolhimento. Ao encontrar seus pares e compartilhar vivências, a mulher quebra o isolamento da porteira e descobre a força da própria voz.

O futuro do agronegócio paulista e brasileiro passa, obrigatoriamente, pela ampliação da participação feminina em todas as frentes — da produção orgânica às grandes lavouras, da administração financeira à representatividade sindical. Mas essa jornada de fora para dentro começa, inevitavelmente, de dentro para fora.

Por isso, o meu convite a cada mulher que acorda cedo para construir a força do nosso agro é um só: troque o verbo. Abandone de vez o “eu só ajudo” e assuma com convicção: eu empreendo, eu lidero, eu produzo.

A terra que nos alimenta é a mesma que espera, com orgulho, a nossa colheita.

Com carinho,

Juliana Farah, presidente da Comissão Semeadoras do Agro da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp)