A pecuária leiteira enfrenta uma das maiores crises da sua história, segundo entidades do setor produtivo. Segundo levantamento do Cepea, o preço pago ao produtor registrou nove meses seguidos de baixa em 2025, resultando em uma queda de 25,8% no ano. Entretanto, a desvalorização não é apontada como o principal fator para a situação no campo.
Desde meados de 2022, o Brasil enfrenta a entrada recorde de leite importado, principalmente do Uruguai e da Argentina. Somado a isso, a captação de leite nacional vem aumentando consideravelmente, com uma alta de 15,4% no acumulado de 2025, conforme os dados do Cepea.
“É um verdadeiro desastre”, resume Alexandre Lopes Lacerda, novo presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Girolando, raça que é responsável por 80% da produção leiteira no país. Ele assumiu o comando da entidade em janeiro e afirma que, em um cenário em que o preço não cobre o custo de produção, “não basta ser eficiente”.
Setor clama por medidas protetivas
De acordo com o presidente da Girolando, o aumento das importações de leite está no mesmo patamar das quedas de preço ao produtor, inviabilizando o lucro nas propriedades. Nesse contexto, ele aponta a necessidade de medidas protetivas por parte do governo federal, o que ainda não aconteceu.
Segundo Lacerda, se o preço do leite aumentasse apenas R$ 0,20, seriam injetados mais de R$ 80 milhões por dia na economia. O discurso de autoridades ligadas ao governo, contudo, não indica mudanças no preço do produto.
“O que ouvimos é que não se pode mexer nisso porque o leite faz parte da cesta básica”, afirma. Por outro lado, o dirigente da Girolando aponta disparidades entre o valor pago pelo consumidor e o recebido pelos produtores. “Na gôndola o leite está em torno de R$ 4, enquanto o produtor recebe R$ 1,50”, afirma.
Lacerda aponta que a situação não fica restrita somente a Minas Gerais, principal estado produtor de leite. Ele conta que conversou com produtores do Sul do país recentemente e que ouviu relatos trágicos. “É uma situação muito complicada”, diz.
Girolando quer aumentar consumo de leite
A importação de leite não é a única preocupação dos produtores neste momento. Lacerda explica que o consumo também tem caído, criando um outro ponto de atenção para a Girolando. “Assumi em janeiro o desafio de apoiar mais de 4.500 associados e ajudá-los a trabalhar de forma cada vez mais eficiente”, reforça.
Dentro dessa estratégia de estímulo ao consumo, a Megaleite, que é uma das principais feiras do setor, ocorre em junho com a missão de reverter esse cenário e aproximar o público urbano da pecuária leiteira.
“O slogan será ‘aqui tem leite’, para mostrar às pessoas que o leite está presente em muitos produtos do dia a dia — medicamentos, suplementos como whey protein, pizzas, biscoitos e diversos alimentos industrializados”, diz. A expectativa é receber mais de 100 mil visitantes e gerar cerca de R$ 400 milhões em negócios.
Além disso, o presidente da Girolando alerta para a necessidade de incentivar a produção de derivados, como o queijo artesanal. Na avaliação dele, isso ajuda o pequeno produtor, já que o leite é extremamente perecível e o queijo aumenta a vida útil do produto e as possibilidades de comercialização.
Importação é ‘desleal’ com produtores brasileiros
Segundo Lacerda, o leite produzido no Brasil enfrenta diversas exigências sanitárias, o que não acontece com os produtos importados. Nesse sentido, ele avalia que a concorrência é desleal.
“Um exemplo é a farinha de osso, proibida no Brasil nas rações por causa da ‘vaca louca’. Em outros países ela é utilizada e o leite desses lugares chega ao mercado brasileiro. Isso cria uma concorrência desigual”, observa. Para ele, faltam políticas públicas claras, tornando o cenário “muito difícil”.
Gestão, genômica e eficiência como prioridades
Em 2025, a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando alcançou o maior número de registros genealógicos da história. Foram contabilizados 113.690 registros no país inteiro, um aumento de 5% na comparação com 2024. Diante disso, o investimento em genética segue como uma das prioridades da nova gestão.
“Temos iniciativas como programas de seleção genômica, transferência de tecnologia e capacitação, para ajudar o pequeno produtor a melhorar o rebanho e a produtividade”, ressalta Lacerda. Ele cita a demanda crescente do mercado internacional pela genética da raça girolando. Destaque para as Filipinas, que produzem apenas 1% do leite que consomem e querem ampliar a produção.
Gestão e a eficiência também estão entre as prioridades de 2026, além de manter a atuação da Girolando junto ao poder público, em parceria com entidades como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Frente Parlamentar do Agronegócio (FPA). Nesse contexto institucional, as atenções se voltam para as eleições de outubro.
“A expectativa é que os governantes tratem o agronegócio com respeito e responsabilidade”, reforça. Ele lembra que o setor é um dos principais motores da economia brasileira e precisa de condições para crescer e agregar valor à produção.
Porém, o dirigente acrescenta que o setor precisa de apoio e de incentivo para continuar crescendo. “Temos que ser respeitados e tratados com cuidado”, finaliza.