Juros altos sufocam o produtor e comprometem a competitividade do agronegócio

Por: Rogério Cabral

Portal do Agronegócio

O agronegócio brasileiro continua sendo um dos principais motores da economia nacional, mas enfrenta um obstáculo cada vez mais difícil de superar: o elevado custo do crédito. Com taxas de juros que tornam o financiamento inviável para grande parte dos produtores, especialmente os pequenos e médios, investir em tecnologia, ampliar a produção ou renovar máquinas deixou de ser uma decisão estratégica para se tornar um risco financeiro.

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Na prática, muitos agricultores já não conseguem recorrer aos financiamentos tradicionais e passam a depender do crédito oferecido por fornecedores de máquinas, fertilizantes e defensivos. Esse modelo transfere parte da função do sistema financeiro para a indústria, aumentando a dependência do produtor e reduzindo sua margem de negociação. O resultado é um ciclo de endividamento que limita investimentos e compromete a rentabilidade da atividade rural.

Ao mesmo tempo, o campo exige cada vez mais eficiência. Tecnologias como bioinsumos, agricultura de precisão e inteligência artificial são fundamentais para elevar a produtividade, reduzir custos e tornar a produção mais sustentável. Entretanto, sem acesso a crédito com condições compatíveis com a realidade do setor, justamente quem mais precisa inovar encontra dificuldades para incorporar essas soluções.

A consequência vai além da porteira. A falta de condições para investir desestimula a permanência das novas gerações na atividade rural. Quando a propriedade deixa de ser economicamente viável, cresce o êxodo dos jovens para os centros urbanos, comprometendo a sucessão familiar e a continuidade da produção de alimentos.

Em entrevista exclusiva ao Portal do Agronegócio, o presidente do sistema Faesp/Senar, Tirso Meirelles afirmou que o Brasil possui vocação para ser uma potência agroalimentar, mas essa liderança depende de políticas públicas que garantam crédito acessível, segurança jurídica e previsibilidade ao produtor. “Manter juros elevados em um setor que trabalha com riscos climáticos, oscilações de mercado e longos ciclos produtivos significa reduzir a capacidade de investimento justamente de quem sustenta parte significativa das exportações, do emprego e da segurança alimentar do país”, afirmou Meirelles.

Segundo ele, fortalecer o agronegócio não significa apenas apoiar grandes produtores. “Significa criar condições para que pequenos e médios agricultores tenham acesso à inovação, aumentem sua produtividade, obtenham melhor remuneração por seus produtos e mantenham suas famílias no campo. Sem crédito compatível com a realidade do setor, o desenvolvimento do agronegócio brasileiro continuará limitado por um custo financeiro que hoje pesa mais do que muitos dos desafios enfrentados dentro da própria lavoura”, disse.

Juros elevados restringem investimentos e ampliam desafios para pequenos e médios produtores rurais

Tirso Meirelles, afirmou que o custo do financiamento compromete a sustentabilidade da atividade e dificulta a modernização das propriedades. Ele afirmou que a adoção de bioinsumos, inteligência artificial e outras tecnologias pode contribuir para aumentar a produtividade e melhorar a remuneração da produção.

Meirelles defendeu que a incorporação dessas tecnologias deve alcançar principalmente pequenos e médios produtores, que desempenham papel relevante na permanência das famílias no campo.

“O fortalecimento desse segmento também depende de um ambiente com segurança jurídica e condições que garantam a continuidade da produção de alimentos. Essa junção é fundamental para ter o equilíbrio da segurança jurídica e alimentar do produtor rural”, declarou.

Outro ponto abordado foi a concentração fundiária. De acordo com o entrevistado, cerca de 75% dos produtores ocupam menos de 25% do território paulista, cenário que, segundo ele, pode favorecer a expansão de monoculturas. Ele defendeu políticas públicas voltadas à diversificação da produção, especialmente em um estado com 645 municípios e população superior a 43 milhões de habitantes. “Quem faz isso é o pequeno e o médio produtor”, ressaltou.

Sobre a gestão das propriedades, o entrevistado afirmou que o planejamento é determinante para reduzir riscos financeiros. Segundo ele, a ausência de um plano de negócios pode levar à contratação de crédito incompatível com a capacidade de pagamento, comprometendo a permanência do produtor na atividade. Ele também defendeu a integração entre planejamento, inteligência artificial, big data, bioinsumos e estratégias de comercialização como instrumentos para ampliar a sustentabilidade da produção, concluiu.