IA deve liderar a próxima revolução nas decisões do agro

Por: Rogério Cabral

inteligência artificial

O agronegócio brasileiro sempre evoluiu quando soube incorporar conhecimento. Foi assim com a mecanização, com o melhoramento genético, com a agricultura de precisão, com a biotecnologia e com a conectividade no campo. A próxima transformação, porém, terá uma característica diferente: ela não estará concentrada nas máquinas, mas na qualidade das decisões.

Durante décadas, possuir informação era uma vantagem competitiva. Quem recebia primeiro os dados sobre mercado, clima, custos ou comércio internacional conseguia enxergar oportunidades antes dos demais. Esse cenário está mudando rapidamente. A informação nunca foi tão abundante, tão acessível e tão veloz.

O desafio deixa de ser encontrar dados. Passa a ser interpretar quais deles realmente importam.

Essa mudança atinge toda a cadeia agroalimentar. O produtor precisa decidir o que plantar, quando plantar, quando vender e quanto risco está disposto a assumir. O empacotador avalia compras futuras, estoques e comportamento do consumidor. O exportador acompanha câmbio, logística, acordos comerciais e a movimentação de concorrentes em diferentes continentes. Todos trabalham com uma quantidade crescente de informações que, isoladamente, dizem pouco, mas que, analisadas em conjunto, podem mudar completamente uma estratégia.

O futuro pertence a quem conseguir transformar dados em decisões consistentes.

Isso também altera o papel das instituições do setor. Durante muito tempo, bastava divulgar números e relatórios. Hoje, isso já não é suficiente. Será cada vez mais importante contextualizar informações, identificar tendências, separar fatos de especulações e traduzir cenários complexos em orientações práticas para quem precisa decidir.

Paradoxalmente, quanto maior for a oferta de informações, maior será o valor da credibilidade. Em um ambiente onde qualquer número circula em segundos, a confiança passa a ser um dos ativos mais importantes do agronegócio. Credibilidade não nasce da velocidade. Ela é construída ao longo dos anos, por meio da coerência, da independência e da capacidade de analisar diferentes perspectivas antes de chegar a uma conclusão.

Outro aspecto relevante é que a competitividade deixará de depender apenas da produtividade dentro da porteira. A diferença estará, cada vez mais, na capacidade de antecipar movimentos do mercado, compreender riscos climáticos, identificar oportunidades comerciais e agir antes que essas mudanças se tornem evidentes para todos.

No caso do Feijão, essa realidade é ainda mais evidente. Trata-se de uma cultura extremamente sensível às condições climáticas, às oscilações de oferta e demanda e ao comportamento do consumo. Pequenas mudanças podem alterar significativamente o resultado econômico de uma safra. Nesse contexto, produzir bem continuará sendo essencial, mas decidir bem poderá ser o fator que separa os melhores resultados dos medianos.

O Brasil reúne produtores altamente competentes, pesquisa de excelência e uma cadeia cada vez mais profissional. O próximo passo é transformar esse patrimônio técnico em inteligência estratégica.

As grandes revoluções do agro sempre foram lembradas pelas máquinas que chegaram ao campo. A próxima talvez seja lembrada por algo menos visível, mas muito mais valioso: a capacidade de tomar decisões melhores.

Porque, no fim das contas, produzir mais continuará sendo importante. Mas produzir valor dependerá, acima de tudo, da qualidade das decisões que antecedem cada safra.

Marcelo Lüders é presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), e atua na promoção do feijão brasileiro no mercado interno e internacional