Embrapa impulsiona avanço dos bioinsumos e reúne especialistas para discutir novas soluções para a soja

Por: Rogério Cabral

A Embrapa está na linha de frente das pesquisas que buscam ampliar o uso de bioinsumos na agricultura brasileira. O desenvolvimento de soluções à base de microrganismos benéficos, capazes de melhorar a absorção de nutrientes, auxiliar no controle de pragas e doenças e aumentar a produtividade das lavouras de soja, será um dos principais temas da XXII Reunião da Rede de Laboratórios para Recomendação, Padronização e Difusão de Tecnologias de Inoculantes Microbianos de Interesse Agrícola (RELARE).

O evento será realizado nos dias 19 e 20 de agosto, no Centro de Eventos Sistema FIEP, em Curitiba (PR), e deve reunir aproximadamente 200 participantes, entre pesquisadores, representantes da comunidade acadêmica, órgãos de fiscalização, indústria e consultores.

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Promovida pela Embrapa, em parceria com a Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos (ANPiiBio) e a CropLife Brasil, a XXII RELARE terá como foco o avanço dos bioinsumos no país. A programação vai abordar o uso de microrganismos na agricultura, protocolos para análise de qualidade, validação de novos produtos, além de desafios relacionados ao mercado e à legislação.

“Pretendemos debater e compartilhar dados técnico-científicos voltados à sustentabilidade da produção agropecuária”, explica o pesquisador Marco Antonio Nogueira, da Embrapa Soja, presidente da XXII RELARE.

Embrapa desenvolve pesquisas para ampliar uso de bioinsumos

O trabalho da Embrapa tem contribuído para o desenvolvimento e a validação de tecnologias que permitem utilizar microrganismos em diferentes culturas agrícolas. Entre os exemplos mais consolidados está a Fixação Biológica do Nitrogênio, tecnologia pesquisada e difundida pela Embrapa e amplamente utilizada na produção de soja.

Os inoculantes são produtos biológicos que contêm microrganismos benéficos, como bactérias e fungos, capazes de desempenhar funções importantes para o desenvolvimento das plantas. Além da fixação de nitrogênio, as pesquisas avançam para microrganismos que auxiliam na disponibilização de outros nutrientes, como o fósforo, e para soluções voltadas ao controle biológico de pragas e doenças.

Para Nogueira, o crescimento dos bioinsumos ocorre tanto pelos benefícios ambientais quanto pela necessidade de tornar a produção agrícola mais eficiente diante do aumento dos custos dos insumos sintéticos.

“As culturas de alta demanda nutricional, como milho, trigo, arroz, cana-de-açúcar e pastagens, passaram a empregar com mais intensidade os bioinsumos como alternativa para reduzir custos, aumentar a eficiência de uso de nutrientes e melhorar a eficiência produtiva”, afirma o pesquisador.

Soja é principal exemplo

Na soja, o trabalho desenvolvido pela pesquisa agropecuária brasileira transformou o uso de bactérias fixadoras de nitrogênio em uma tecnologia amplamente adotada pelos produtores.

A tecnologia permite que as plantas obtenham o nitrogênio necessário por meio da atividade das bactérias, dispensando o uso de fertilizantes nitrogenados químicos. Atualmente, cerca de 85% da área de soja no Brasil utiliza a tecnologia a cada safra.

Mesmo em áreas onde as bactérias já estão presentes naturalmente no solo, a recomendação é realizar anualmente a inoculação. Segundo Nogueira, o uso do bioinsumo pode proporcionar ganhos médios de produtividade entre 8% e 16% na soja.

Na última safra, de acordo com levantamento da Embrapa, a substituição de fertilizantes nitrogenados por essa tecnologia gerou uma economia de aproximadamente US$ 28 bilhões ao Brasil. Ambientalmente, a tecnologia também contribuiu para evitar a emissão de quase 280 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, volume comparável à retirada de cerca de 60 milhões de carros de passeio das ruas durante um ano.

Pesquisas avançam também no milho

No milho, principalmente na segunda safra, a utilização de inoculantes para gramíneas também vem crescendo. Segundo Nogueira, já são comercializadas mais de 40 milhões de doses por ano de inoculantes destinados a essas culturas.

Embora os bioinsumos não substituam totalmente os fertilizantes nitrogenados no milho, eles podem aumentar a eficiência de aproveitamento dos nutrientes. Em determinadas condições, a utilização dos microrganismos pode permitir uma redução de até 25% na adubação nitrogenada de cobertura.

A expansão desse tipo de tecnologia é resultado de pesquisas que buscam adaptar o uso de microrganismos às necessidades de diferentes culturas, ampliando o alcance dos bioinsumos no campo.

Microrganismos na absorção de fósforo

Outro campo de pesquisa que vem avançando é o desenvolvimento de microrganismos mobilizadores de fosfato. Esses organismos ajudam as plantas a acessar formas de fósforo presentes no solo que normalmente permanecem indisponíveis.

A estratégia pode melhorar o aproveitamento do nutriente pelas culturas e contribuir para uma agricultura mais eficiente no uso de fertilizantes.

Controle biológico ganha espaço

As pesquisas com bioinsumos também avançam no controle biológico de pragas e doenças. O uso de microrganismos e outros agentes biológicos amplia as alternativas disponíveis aos agricultores e pode reduzir a dependência de produtos químicos.

“O crescimento da adoção é impulsionado não apenas pelos ganhos econômicos, mas também pelos benefícios ambientais, como a redução da dependência de insumos químicos e a menor emissão de impactos associados à sua produção”, destaca Nogueira.

RELARE reúne pesquisa, indústria e setor produtivo

Além de discutir os avanços científicos, a XXII RELARE pretende aproximar pesquisadores, empresas e diferentes setores envolvidos no desenvolvimento e na utilização dos bioinsumos.

A comissão organizadora recebe até 15 de agosto trabalhos científicos finalísticos, na forma de resumos. Os trabalhos serão apresentados em sessão de pôsteres e publicados nos anais do evento. Para participar, é necessário realizar a inscrição pelo site oficial da RELARE.

A programação também contará com uma Rodada de Negócios, destinada a pesquisadores interessados em apresentar ativos e tecnologias a representantes da indústria. Os interessados devem enviar, até 15 de agosto, um resumo simples para o pesquisador Marco Antonio Nogueira, pelo e-mail marco.nogueira@embrapa.br.

A XXII RELARE conta ainda com o apoio dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT MicroAgro) e da Fundação Araucária. A iniciativa reforça o papel da Embrapa na pesquisa, desenvolvimento e difusão de tecnologias biológicas para a agricultura, aproximando a ciência das necessidades do setor produtivo e contribuindo para o avanço de uma produção mais eficiente e sustentável.