Por Renato Rodrigues, PhD — Professor Associado da Fundação Dom Cabral e Diretor de Negócios da Capital Agro Investors
Neste 14 de abril, celebramos o Dia Mundial do Café — e nenhum país tem mais razões para celebrar do que o Brasil. Somos o maior produtor e exportador do grão no planeta há mais de 150 anos, uma liderança que não apenas se mantém como se aprofunda: a Conab projeta, para a safra 2026, uma colheita recorde de 66,2 milhões de sacas de 60 kg, um salto de 17,1% em relação ao ano anterior e o maior volume já registrado na série histórica oficial do país.
Em 2025, mesmo num ano de bienalidade negativa, as exportações brasileiras de café atingiram receita recorde de US$ 16,1 bilhões, com o preço médio de exportação subindo 57,2% em relação a 2024.
Os números impressionam, mas é preciso olhar além deles. Porque o futuro do café — e do sistema alimentar tropical que o sustenta — está sendo redesenhado agora, sob a pressão inexorável da mudança do clima.
O café no centro da economia e da cultura global
O café é a segunda bebida mais consumida no planeta, atrás apenas da água. São cerca de 2,25 bilhões de xícaras servidas por dia em todo o mundo. O USDA projeta que o consumo global atingirá o recorde de 173,9 milhões de sacas na temporada 2025/2026, com crescimento acelerado em mercados emergentes da Ásia — a China, por exemplo, mais que dobrou seu consumo na última década, passando de 2,4 milhões de sacas em 2014/2015 para estimados 5,6 milhões em 2024/2025.
No Brasil, o café movimentou R$12 bilhões em 2025 somente no segmento de foodservice, segundo o Instituto Foodservice Brasil. A cadeia cafeeira emprega milhões de pessoas, desde o pequeno produtor familiar no Sul de Minas até os baristas das cafeterias especializadas de São Paulo. É uma cultura que transpassa classes sociais, gerações e regiões — o cafezinho continua sendo o gesto mais universal de acolhimento no país.
A safra 2026 traz boas notícias: a bienalidade positiva, a expansão da área em produção para 1,9 milhão de hectares (aumento de 4,1%), condições climáticas mais favoráveis e o contínuo investimento em tecnologia e manejo devem elevar a produção de arábica para 44,1 milhões de sacas (alta de 23,3%) e de conilon para 22,1 milhões de sacas, um novo recorde para a variedade. Minas Gerais, o maior estado produtor de arábica do mundo, deve colher 32,4 milhões de sacas, beneficiado por chuvas mais regulares nas fases críticas de floração.
Curiosidades para saborear com o seu café
O universo do café é tão rico quanto a bebida que dele se extrai. A origem do grão remonta ao século IX, nas terras altas da Etiópia, onde a lenda do pastor Kaldi — que teria observado suas cabras ficarem agitadas após consumirem os frutos vermelhos de um arbusto — inaugura a narrativa do café na história humana. Da Etiópia, o café migrou para a Península Arábica, onde as primeiras *coffeehouses* surgiram no século XV, na Turquia, Pérsia, Síria e Arábia, antes de conquistar a Europa no século XVI.
A Finlândia lidera o consumo per capita global, com aproximadamente 12 kg por pessoa por ano — o ritual do *kahvitauko* (pausa para o café) é considerado sagrado tanto em escritórios quanto em lares. Na Itália, berço do espresso, o café é bebido rápido e em pé no balcão do bar. Na Turquia, o método de preparo no *cezve* e a tradição de ler a borra são reconhecidos pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
As espécies arábica e robusta (conilon) respondem por 99% de todo o café consumido no mundo. O arábica, mais aromático e de sabor mais complexo, representa entre 60% e 70% da produção global e prospera em temperaturas amenas, entre 18°C e 21°C, em altitudes mais elevadas. O robusta, mais resiliente ao calor e a pragas, tolera ambientes entre 22°C e 26°C e vem ganhando participação crescente no mercado global — em parte como resposta adaptativa à mudança do clima.
Um dado que merece reflexão: os estoques globais de café no início da temporada 2025/2026 atingiram o menor nível em 25 anos, estimados em 21,3 milhões de sacas — uma queda de 7,8% em relação ao ciclo anterior. A demanda cresce mais rápido que a oferta, e esse desequilíbrio estrutural deve manter os preços internacionais em patamares elevados.
O futuro do café sob a lente da mudança do clima
É aqui que a celebração precisa dar lugar à lucidez estratégica.
As projeções científicas são inequívocas: até 2050, cerca de metade das áreas atualmente aptas para a produção de café arábica no mundo pode se tornar inadequada para o cultivo. Um relatório recente do Rabobank, publicado em março de 2026, estima que 8% das regiões produtoras de arábica já são classificadas como climaticamente inadequadas, e essa proporção pode chegar a 20% nos próximos 25 anos. No Brasil, a parcela da produção de arábica em áreas classificadas como “aptas” deve cair de 81% para 62% até 2050.
As regiões mais vulneráveis são aquelas com estações secas prolongadas e temperaturas mais altas — partes do norte de Minas Gerais, interior de São Paulo e América Central, onde até 80% das áreas atuais de café podem se tornar inviáveis. O estudo publicado na PLOS ONE pelo World Coffee Research confirma que as maiores perdas de aptidão ocorrerão justamente nos hotspots de alta produtividade atual, áreas quentes e secas que hoje entregam os maiores rendimentos de arábica no mundo.
Os impactos não se limitam à redução de área. A mudança do clima afeta a fenologia do café (antecipando a antese em regiões mais frias e atrasando-a em regiões mais quentes), acelera a maturação dos frutos — o que degrada a qualidade do grão — e amplifica a pressão de pragas e doenças, como a ferrugem do café. Temperaturas acima de 30°C de forma contínua comprometem severamente o crescimento das plantas, provocando amarelecimento foliar, desfolha e até formação de tumores nos ramos.
O Brasil precisa liderar a adaptação — e já está começando
Nesse contexto de adaptação, a nutrição mineral de precisão assume papel estratégico que ainda é subestimado no debate público. Fertilizantes sólidos de alta tecnologia — formulações com liberação controlada, micronutrientes quelatizados e matrizes que otimizam a eficiência de absorção pela planta — permitem que o cafeeiro mantenha produtividade estável mesmo sob estresse hídrico e térmico crescentes, condições que a mudança do clima tornará cada vez mais frequentes nas principais regiões produtoras. Quando o solo perde capacidade de tamponamento e a janela de absorção radicular se encurta por irregularidade pluviométrica, a diferença entre uma lavoura que entrega 40 sacas por hectare e outra que entrega 25 está, muitas vezes, na qualidade e na tecnologia embarcada no fertilizante — não apenas na quantidade aplicada.
A nutrição foliar complementa essa equação de forma decisiva. Em cenários de seca prolongada ou veranicos durante fases críticas como floração e granação, a via foliar contorna a limitação da absorção radicular e entrega nutrientes diretamente onde a planta mais precisa, no momento em que mais precisa. Fertilizantes foliares de alta concentração e alta solubilidade, desenvolvidos especificamente para culturas tropicais perenes, funcionam como um seguro biológico da lavoura: reduzem a amplitude de oscilação entre safras boas e ruins, protegem o potencial produtivo contra choques climáticos e, em última análise, contribuem para a segurança alimentar global ao estabilizar a oferta de um produto consumido por bilhões de pessoas. Num país que responde por um terço da produção mundial de café, investir em tecnologia nutricional não é custo — é infraestrutura de resiliência.
A safra recorde de 2026 é uma excelente notícia, mas não deve nos iludir. Os quatro anos anteriores de impactos climáticos severos — secas prolongadas, ondas de calor, chuvas irregulares — que afetaram a cafeicultura brasileira são um lembrete de que a bienalidade positiva não apaga a tendência de longo prazo.
A resposta passa por três frentes simultâneas. A primeira é a intensificação tecnológica: irrigação eficiente, cultivares tolerantes ao estresse hídrico e térmico, manejo regenerativo de solo e sistemas agroflorestais que reduzam a exposição das lavouras a extremos climáticos. A segunda é a migração altitudinal e geográfica da produção, com expansão planejada para regiões de maior altitude ou latitude, onde as condições climáticas futuras ainda serão compatíveis com o arábica de qualidade. A terceira — e talvez a mais transformadora — é a valorização do conilon e de variedades híbridas que combinem o perfil sensorial do arábica com a resiliência do robusta, uma linha de pesquisa que organizações como a World Coffee Research e centros de excelência na Colômbia e no Brasil já perseguem com resultados promissores.
O mercado de cafés especiais, que já representa parcela significativa do faturamento dos produtores brasileiros e proporciona margens até 40% superiores às do café convencional, é ao mesmo tempo uma oportunidade e uma vulnerabilidade: os sabores e aromas que distinguem o café de terroir dependem justamente das condições climáticas que estão se alterando. Se as condições de origem mudam, o perfil sensorial muda junto.
Da xícara ao sistema: uma reflexão necessária
O café é muito mais do que uma commodity. É um sistema alimentar tropical complexo que sustenta milhões de famílias, movimenta bilhões de dólares e está profundamente enraizado na cultura de dezenas de nações. A celebração do Dia Mundial do Café em 2026 nos convida a brindar, sim, os números extraordinários da cafeicultura brasileira — mas também a encarar com seriedade o desafio da adaptação produtiva à mudança do clima.
O Brasil, como maior produtor do mundo, tem a responsabilidade — e a oportunidade — de liderar essa transição. Não apenas para garantir que continuaremos exportando sacas de café nas próximas décadas, mas para demonstrar que é possível construir sistemas agropecuários tropicais produtivos, resilientes e sustentáveis num planeta em aquecimento. A xícara de café que você toma todas as manhãs depende disso. E o futuro de milhões de pessoas ao longo do cinturão tropical também.
Renato Rodrigues é biólogo e PhD em Geoquímica Ambiental, com pós-doutorado em Sistemas de Gestão Sustentável. É Diretor de Negócios da Capital Fertilizantes, Professor Associado da Fundação Dom Cabral. Foi pesquisador da Embrapa, membro da UNFCCC e IPCC e co-autor do Plano ABC.