Durante julho de 2026, a distribuição das chuvas apresentou forte contraste espacial no território nacional. Na Região Norte, predominaram acumulados entre 120 e 180 mm, com áreas entre 180 e 240 mm e registros pontuais superiores a 240 mm, especialmente no oeste da Amazônia e em setores do extremo norte. No Nordeste, os volumes variaram, em geral, entre 30 e 90 mm, com acumulados mais elevados em áreas do norte e da faixa litorânea. No Centro-Oeste e no Sudeste, prevaleceram totais inferiores a 60 mm, embora tenham ocorrido áreas isoladas entre 60 e 90 mm. Na Região Sul, os volumes foram variados: o Paraná apresentou acumulados predominantemente entre 60 e 120 mm, enquanto Santa Catarina e, principalmente, o Rio Grande do Sul registraram valores mais elevados, com extensas áreas entre 150 e 210 mm e pontos superiores a 240 mm no território gaúcho.
Em relação ao armazenamento de água no solo, expresso como percentual da capacidade de água disponível (% CAD), as condições mais favoráveis foram observadas na Região Norte, onde predominaram valores entre 60% e 90%, com áreas pontuais superiores a 90%. No Nordeste, o armazenamento apresentou maior variabilidade, com níveis entre 30% e 60% na faixa setentrional e litorânea, mas valores inferiores a 30% em extensas áreas do interior. No Centro-Oeste, no Sudeste e em parte do interior nordestino, predominaram níveis entre 0% e 15% da CAD, evidenciando baixa disponibilidade hídrica no perfil do solo. Na Região Sul, verificou-se recuperação progressiva das condições hídricas, com valores entre 30% e 75% no Paraná e níveis predominantemente superiores a 60% em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, alcançando 75% a 90% em amplas áreas.
As temperaturas máximas permaneceram elevadas em grande parte do território brasileiro. Na Região Norte, predominaram valores entre 29°C e 31°C, com áreas entre 31°C e 33°C no sul da região. No Nordeste e em setores do Brasil Central, foram observadas as maiores temperaturas, com valores frequentes entre 31°C e 35°C e registros pontuais superiores a 35°C, especialmente em áreas interiores. No Centro-Oeste, as máximas variaram predominantemente entre 29°C e 33°C. No Sudeste, prevaleceram temperaturas entre 25°C e 29°C, com valores mais elevados no norte de Minas Gerais e em áreas interiores. Na Região Sul, as condições foram mais amenas, com máximas entre 25°C e 29°C no Paraná, valores próximos ou inferiores a 25°C em parte de Santa Catarina e temperaturas inferiores a 25°C em grande parte do Rio Grande do Sul.
As temperaturas mínimas evidenciaram o contraste térmico entre o norte e o centro-sul do país. Na Região Norte, predominaram valores entre 23°C e 25°C, com registros pontuais superiores a 25°C. No Nordeste, as mínimas situaram-se principalmente entre 21°C e 23°C, diminuindo para 17°C a 21°C em áreas do interior e de maior altitude. No Centro-Oeste, prevaleceram temperaturas entre 17°C e 21°C, com valores mais elevados no norte de Mato Grosso. No Sudeste, as mínimas variaram, em geral, entre 15°C e 19°C, com áreas inferiores a 15°C em setores de Minas Gerais e nas regiões serranas. Na Região Sul, predominaram temperaturas inferiores a 15°C, especialmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, caracterizando condições típicas do inverno no centro-sul brasileiro.
TEMPO E AGRICULTURA BRASILEIRA
Trigo
A semeadura do trigo encontra-se próxima da conclusão no país. Conforme o monitoramento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), até 27 de julho, 98,8% da área nacional destinada à cultura já havia sido implantada. No Rio Grande do Sul, as chuvas interromperam temporariamente as operações e o frio desacelerou o desenvolvimento das lavouras, que permanecem predominantemente em fase vegetativa. No Paraná, o tempo firme favoreceu a conclusão da semeadura e a manutenção das boas condições das áreas. Em Santa Catarina, as condições meteorológicas contribuíram para a finalização do plantio e para os tratos culturais, enquanto as geadas de baixa intensidade registradas no Planalto Sul favoreceram o perfilhamento.
Em São Paulo, o enchimento de grãos está próximo da conclusão, com disponibilidade hídrica adequada e ausência de danos significativos por geadas. Em Minas Gerais, a colheita das áreas de sequeiro avança lentamente, com resultados inferiores no Noroeste, onde as chuvas tardias favoreceram a ocorrência de brusone. No Sul de Minas e no Alto Paranaíba, os rendimentos devem permanecer próximos da normalidade, enquanto as lavouras irrigadas mantêm perspectivas mais favoráveis. Em Goiás, a colheita se aproxima da metade da área, e, em Mato Grosso do Sul e na Bahia, as lavouras apresentam desenvolvimento satisfatório.
No Rio Grande do Sul, a Associação Rio-Grandense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural/Associação Sulina de Crédito e Extensão Rural (Emater/RS-Ascar) informou que, até 23 de julho, 97% dos 814,2 mil hectares projetados haviam sido semeados. Aproximadamente 99% das lavouras estavam em germinação ou desenvolvimento vegetativo, e 1% já havia ingressado em floração. A maior disponibilidade de radiação solar favoreceu o estabelecimento das plantas e a realização da adubação de cobertura, embora as chuvas e os ventos tenham aumentado a preocupação com doenças e possíveis danos localizados.
No Paraná, o Departamento de Economia Rural da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Deral/Seab-PR) indica bom desenvolvimento nas diferentes regiões produtoras. As lavouras encontram-se entre os estádios vegetativos e reprodutivos, incluindo áreas em floração, enchimento de grãos e início de maturação. As chuvas contribuíram para a recuperação da umidade do solo, mas o excesso de umidade dificultou temporariamente os tratos culturais e exigiu maior atenção ao manejo fitossanitário.
Feijão 2ª safra
A colheita do feijão segunda safra está concluída no Paraná e em Minas Gerais. No Oeste da Bahia, a colheita do feijão-caupi aproxima-se de 60% da área, com boa qualidade dos grãos, favorecida pela baixa ocorrência de chuvas durante a maturação. As lavouras mais tardias de feijão cores, predominantemente irrigadas, encontram-se em enchimento de grãos e apresentam boas condições gerais.
Em Santa Catarina, a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, por meio do Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola (Epagri/Cepa), informou que a colheita está encerrada. As baixas temperaturas e as geadas registradas desde meados de maio prejudicaram principalmente os cultivos tardios, sobretudo nas áreas de baixada e nas lavouras que ainda estavam em enchimento de grãos. A área cultivada foi estimada em aproximadamente 19,7 mil hectares, com produtividade média de 1.612 kg/ha e produção de 31,7 mil toneladas, representando reduções de 41,3%, 5,9% e 44,7%, respectivamente, em relação à safra anterior.
Feijão 3ª safra
O feijão terceira safra encontra-se entre o enchimento de grãos, a maturação e o início da colheita nas principais regiões produtoras. Em Minas Gerais, a colheita ainda é incipiente e concentra-se no Noroeste do estado, onde o cenário fitossanitário permanece favorável, com menor pressão de mosca-branca. Na Bahia, a colheita foi iniciada, porém as lavouras do Nordeste do estado ainda apresentam sinais de estresse hídrico, apesar da ocorrência de chuvas esparsas.
Em Goiás, as operações avançam em todas as regiões produtoras, com maior evolução no Vale do Araguaia. O tempo seco tem favorecido a colheita e a qualidade dos grãos, e aproximadamente 35% da área já havia sido colhida. As lavouras remanescentes encontram-se predominantemente entre o enchimento de grãos e a maturação.
Milho 1ª safra
A colheita do milho primeira safra está praticamente concluída no país. Segundo a Conab, 99% da área nacional havia sido colhida até 27 de julho. Os trabalhos estavam finalizados em Santa Catarina, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás, Minas Gerais e Pará, enquanto, na Bahia, no Maranhão e no Piauí, as operações se aproximavam da conclusão. No Rio Grande do Sul, o plantio da safra 2026/27 já foi iniciado pontualmente.
Em Santa Catarina, a primeira safra ocupou aproximadamente 265,5 mil hectares, com produtividade média estimada em 9.592 kg/ha e produção próxima de 2,55 milhões de toneladas. Os resultados refletem condições climáticas predominantemente favoráveis e o elevado nível tecnológico empregado pelos produtores, mantendo a cultura entre os maiores patamares de produtividade da série estadual.
Milho 2ª safra
O milho segunda safra encontra-se predominantemente em maturação e colheita. Conforme a Conab, 58,3% da área nacional estava colhida até 27 de julho. Em Mato Grosso, as operações avançam de forma acelerada e já alcançam os talhões semeados mais tardiamente, com produtividades superiores às estimativas iniciais. No Paraná, a redução das chuvas favoreceu o ritmo da colheita, enquanto, em Mato Grosso do Sul, os rendimentos obtidos são considerados satisfatórios.
Em Goiás, a maior umidade dos grãos continua restringindo o avanço das operações em parte do Sudoeste. Em Minas Gerais, a colheita das áreas irrigadas apresenta produtividades abaixo das estimadas inicialmente, e, em São Paulo, as chuvas provocaram atrasos. No Tocantins, as operações se aproximam da finalização, embora as áreas implantadas fora da janela ideal apresentem menores rendimentos. No Maranhão e no Piauí, as produtividades permanecem inferiores às do ciclo anterior, enquanto o Pará registra bons resultados nos polos de Santarém e Paragominas.
Em Mato Grosso, o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) informou que, até 24 de julho, 90,66% da área havia sido colhida, avanço semanal de 11,74 pontos percentuais. O tempo firme favoreceu as operações, com destaque para o Médio-Norte, o Norte e o Nordeste do estado. A estimativa de julho considera 7,39 milhões de hectares, produtividade média de 128,64 sacas por hectare e produção de aproximadamente 57,06 milhões de toneladas.
No Mato Grosso do Sul, o levantamento do Sistema Famasul e da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS) estima área de 2,206 milhões de hectares, produtividade média de 84,2 sacas por hectare e produção de 11,139 milhões de toneladas. No momento da avaliação, 71% das lavouras estavam classificadas em boas condições, 17,9% em condições regulares e 11,1% em condições ruins.
Algodão
A colheita do algodão avança nas principais regiões produtoras e alcançava 16,5% da área nacional até 27 de julho. Em Mato Grosso, o tempo favorável e a ampliação das áreas em ponto adequado de maturação contribuíram para o aumento do ritmo das operações, enquanto o controle do bicudo-do-algodoeiro permanece como prioridade fitossanitária. Na Bahia, a colheita aproxima-se de 20% da área; no Maranhão, está próxima da metade da primeira safra; e, em Mato Grosso do Sul, já alcança 50%, com elevado potencial produtivo na região dos Chapadões.
Em Minas Gerais, as lavouras apresentaram bom desenvolvimento e as produtividades obtidas vêm superando as projeções iniciais. Em Goiás, a colheita avança com bons rendimentos, embora as chuvas recentes tenham afetado parte da pluma já exposta no extremo sul, aumentando a presença de impurezas. No Piauí, as operações começam a ganhar intensidade, com resultados superiores às expectativas iniciais, enquanto, em São Paulo, a colheita está concluída.
Em Mato Grosso, o Imea registrou 13,11% da área colhida até 24 de julho, avanço semanal de 4,75 pontos percentuais, mas resultado ainda 7,86 pontos percentuais abaixo da média dos últimos cinco anos. O atraso está relacionado às chuvas ocorridas em meados de junho. Embora não tenham sido observadas perdas expressivas de produtividade, foram relatadas alterações na qualidade da fibra em algumas áreas. A tendência é de intensificação das operações com o avanço da colheita do algodão de segunda safra, que representa mais de 85% da área estadual destinada à cultura.
El Niño e possíveis impactos sobre as culturas
O Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA/CPC) indica que o El Niño permanece ativo e deverá se intensificar até o final de 2026, com 97% de probabilidade de persistir até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte. As projeções do Climate Forecast System Version 2 (CFSv2) também apontam fortalecimento das anomalias de temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 durante a primavera e o início do verão, seguido por enfraquecimento gradual. Esse cenário amplia a necessidade de acompanhamento agrometeorológico, mas não implica impactos uniformes ou automáticos, pois os efeitos do El Niño–Oscilação Sul (ENOS) dependem da época de ocorrência, da região e da interação com outros sistemas atmosféricos.
Para o trigo no Sul, chuvas frequentes durante o espigamento, o enchimento de grãos e a maturação podem elevar a pressão de doenças, favorecer o acamamento e prejudicar a qualidade dos grãos. Para o feijão, temperaturas elevadas e restrições hídricas durante a floração e a formação das vagens podem reduzir o pegamento e o enchimento dos grãos, enquanto o excesso de chuva na maturação pode comprometer a qualidade e dificultar a colheita. No milho, calor e deficiência hídrica nos estádios reprodutivos podem afetar a polinização e o enchimento de grãos, além de eventuais atrasos na implantação das culturas de verão poderem reduzir a janela disponível para o milho segunda safra. No algodão, chuvas durante a abertura dos capulhos e a colheita aumentam o risco de deterioração da fibra, presença de impurezas e atraso operacional, enquanto períodos quentes e secos nas fases reprodutivas podem limitar a retenção e o desenvolvimento das maçãs. Esses efeitos representam riscos potenciais e devem ser avaliados de acordo com a evolução efetiva das condições meteorológicas em cada região produtora.
