Brasil em rota de colisão com a maior dependência de importações de trigo da história

Por: Rogério Cabral

Lavoura de trigo no município de Ibirapuitã, RS, agricultura, safra, IBGE

O Brasil está prestes a entrar em um novo capítulo da sua história na triticultura. Os números do levantamento final de área cultivada para a safra 2026/27 mostram uma retração muito mais profunda do que uma simples oscilação de mercado.

Se as estimativas se confirmarem, o país deverá registrar a menor produção dos últimos anos e, como consequência, a maior necessidade de importação de trigo já observada para garantir o abastecimento interno.

A área plantada foi confirmada em 1,905 milhão de hectares, redução de 20% em relação aos 2,381 milhões de hectares cultivados na safra anterior. A consequência direta é uma produção potencial estimada em apenas 5,855 milhões de toneladas, volume 27,9% inferior às 8,120 milhões de toneladas colhidas em 2025/26. A produtividade média nacional também deverá recuar, passando de 3.410 kg/ha para 3.073 kg/ha, reflexo de uma estratégia mais conservadora dos produtores, que reduziram investimentos diante de um ambiente de baixa rentabilidade.

Embora o clima continue sendo um dos principais fatores de risco para a cultura, a forte redução da safra brasileira não nasceu nas lavouras. Ela começou muito antes, durante o planejamento da temporada, quando milhares de produtores precisaram decidir se valeria a pena investir novamente no trigo. A resposta, em grande parte do país, foi negativa.

A principal razão dessa mudança foi o enfraquecimento da rentabilidade da cultura. Enquanto os custos de produção permaneceram elevados, especialmente em função da valorização dos fertilizantes nitrogenados após o agravamento das tensões geopolíticas no Oriente Médio, os preços do trigo continuaram pressionados pela elevada oferta mundial e pela competitividade do cereal importado.

Essa combinação produziu uma das piores relações de troca da história recente da triticultura brasileira, obrigando o agricultor a entregar volumes cada vez maiores de trigo para adquirir os mesmos insumos utilizados na lavoura.

Entretanto, o problema vai além da relação entre preços e custos. Depois de vários anos consecutivos de margens reduzidas ou negativas, boa parte dos produtores chegou à safra 2026/27 financeiramente desgastada. O elevado endividamento reduziu a capacidade de investimento, dificultou o acesso ao crédito rural e levou muitos agricultores a diminuir o pacote tecnológico das lavouras.

Em diversas regiões, a decisão foi reduzir a área cultivada; em outras, optou-se por manter o plantio, porém com menor utilização de fertilizantes, defensivos e sementes de maior potencial produtivo. O resultado aparece agora nas estimativas de produtividade. Outro componente importante dessa equação foi a ausência de uma política de seguro agrícola capaz de oferecer previsibilidade ao produtor.

Clima desmotivou produtores

Em um cenário de crescente instabilidade climática, muitos agricultores passaram a considerar excessivo o risco financeiro de investir em uma cultura altamente sensível às condições meteorológicas. Sem um mecanismo eficiente de mitigação desse risco, preservar capital tornou-se prioridade, mesmo que isso significasse abrir mão de produtividade ou reduzir a participação do trigo na propriedade.

Essa percepção foi intensificada pela expectativa de um ciclo sob influência do El Niño. Embora ainda seja cedo para mensurar seus impactos efetivos sobre a produção, a possibilidade de um padrão climático mais instável ao longo do desenvolvimento das lavouras elevou a cautela dos produtores. Excesso de chuvas, geadas tardias e dificuldades durante a colheita são fatores que podem comprometer não apenas o rendimento das lavouras, mas também a qualidade industrial dos grãos, aspecto particularmente relevante para um país que já apresenta déficit estrutural de trigo de padrão moageiro.

A retração ocorreu de forma praticamente generalizada. O Rio Grande do Sul, maior produtor nacional, reduziu sua área em 28,6%, passando para 750 mil hectares, enquanto a produção potencial caiu 33,3%, para 2,4 milhões de toneladas.

No Paraná, a área diminuiu 13,5%, para 740 mil hectares, com produção estimada em 2,2 milhões de toneladas, retração de 21,4%. Também houve reduções expressivas em Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul e Bahia, evidenciando que a perda de competitividade da cultura ocorreu de maneira ampla e não ficou restrita a uma região específica.

Apesar da forte redução, os números ainda representam apenas o potencial produtivo inicial e não incorporam eventuais perdas climáticas ao longo do ciclo. A exceção ocorre em Minas Gerais e Goiás, onde a estiagem já compromete parte das lavouras de trigo de sequeiro. Nos demais estados, o desempenho final dependerá das condições meteorológicas dos próximos meses. Ainda assim, mesmo que o potencial atual seja integralmente confirmado, a produção nacional ficará muito distante da necessidade de consumo do país.

É justamente esse ponto que transforma a safra 2026/27 em um marco para o mercado brasileiro de trigo. Com uma produção estimada em apenas 5,855 milhões de toneladas, o Brasil deverá necessitar de mais de 8 milhões de toneladas de importações para equilibrar sua oferta e demanda. Trata-se, possivelmente, da maior dependência do mercado internacional já registrada pelo país.

Esse cenário ganha ainda mais importância diante do atual contexto global. O comércio mundial de trigo atravessa um período de elevada volatilidade, marcado pelas tensões no Mar Negro, incertezas sobre a produção em importantes países exportadores e crescente sensibilidade dos preços aos eventos geopolíticos e climáticos.

Quanto menor a produção brasileira, maior será a exposição do abastecimento interno às oscilações cambiais, aos custos logísticos internacionais e às disputas por oferta entre os grandes importadores mundiais.

Mais do que uma redução pontual da safra, os números revelam uma mudança importante no comportamento do produtor brasileiro. A decisão de investir menos no trigo não decorre apenas das condições observadas nesta temporada, mas de um processo de perda gradual de competitividade acumulado ao longo dos últimos anos.

Custos elevados, crédito mais restrito, seguro agrícola insuficiente, margens apertadas e maior percepção de risco alteraram a lógica econômica da cultura. Se o potencial produtivo se confirmar, o Brasil registrará a maior necessidade de importação de trigo de sua história, ampliando a dependência do mercado internacional para garantir o abastecimento interno.

Contudo, é importante lembrar que as commodities agrícolas são, por natureza, mercados cíclicos. Historicamente, o melhor remédio para preços baixos são os próprios preços baixos, que desestimulam a produção ao redor do mundo, reduzem a oferta e, com o tempo, criam as condições para uma recuperação das cotações. Um ambiente internacional de preços mais elevados melhora a rentabilidade da atividade e devolve competitividade ao produtor brasileiro.

Esse ajuste de mercado, entretanto, não elimina a necessidade de enfrentar os desafios estruturais da triticultura nacional. Para que o trigo se consolide como uma cultura mais resiliente, será fundamental avançar em políticas de crédito, seguro rural e instrumentos de gestão de risco que permitam ao produtor atravessar os inevitáveis ciclos de baixa sem provocar reduções tão acentuadas de área e produção.

Mais do que responder às oscilações do mercado, o desafio é construir uma cadeia capaz de manter sua competitividade e garantir maior segurança de abastecimento ao país, independentemente da fase do ciclo de preços.

Élcio Bento, especialista em trigo da Safras & Mercado

Élcio Bento é especialista em trigo graduado em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Faz parte da divisão de especialistas de Safras & Mercado há mais de 20 anos