Antimicrobianos serão proibidos? Arroba será afetada? Como fica o pecuarista? Scot responde

Por: Rogério Cabral

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) vai proibir o uso de antimicrobianos no gado brasileiro a pedido da União Europeia? Quem vai vencer essa briga: indústria farmacêutica ou frigoríficos? Como fica o pecuarista no meio desta batalha? Como fica o preço do gado?

Segundo o CEO da Scot Consultoria, Alcides Torres, o Mapa deve vetar a utilização dessas substâncias no gado apenas se os pecuaristas não atenderem as regras já estabelecidas em relação aos antimicrobianos.

Algumas das substâncias que já são proibidas são a virginiamicina, avoparcina, Bacitracina, Bacitracina de Zinco e Bacitracina Metileno Disalicilato. Vale lembrar que a União Europeia já retirou o Brasil da lista de países autorizados a exportar carnes devido a divergências sobre o controle desses produtos.

“Vai ser ruim para os frigoríficos de pequeno e médio porte, sem operações fora do Brasil e com maior dependência do mercado europeu. Esses tendem a enfrentar maiores dificuldades para absorver os efeitos da restrição devido à menor flexibilidade comercial e logística”, pontua Torres.

Ele lembra que grandes grupos frigoríficos com operações internacionais, como JBS e Marfrig, possuem maior capacidade de adaptação, uma vez que podem redirecionar fluxos comerciais e utilizar plantas localizadas em outros países, como o Uruguai, para atender determinados mercados.

“Em relação ao pecuarista, vai exigir que ele adote protocolos de produção mais rigorosos e rastreabilidade total do rebanho, pois pode gerar custo adicionais consideráveis para a cadeia, além disso, há rumores de pecuaristas que criticam essa imposição, pois há uma preocupação no aumento da burocracia e na redução da competividade do produtor que não possui contratos de bonificação específicos para o mercado europeu”, destaca o CEO da Scot.

Preço da arroba do boi gordo

Torres avalia que a arroba do boi gordo deve se manter em alta no segundo semestre, principalmente no quarto trimestre, visto que volume, a União Europeia representa uma parcela pequena das exportações brasileiras (cerca de 3,5% a 5%), enquanto os principais compradores do Brasil são a China e os Estados Unidos.

“Ademais, existem outros fatores que podem contribuir com essa afirmação, como o El Niño, por exemplo, que não age da mesma forma em todo o Brasil, pois os efeitos benéficos e prejudiciais podem variar nas regiões.”

De acordo com Torres, a demanda interna por mais proteínas deve aumentar no final do ano por conta das bonificações oferecidas pelas empresas aos funcionários, além do 13º salário. Somado a isso, as eleições para presidente e governador também devem injetar mais dinheiro na economia devido ao fundo eleitoral mais robusto.

A respeito das exportações, o CEO da Scot acredita que o valor absoluto em disputa, de US$ 1 bilhão ao ano exportado à União Europeia é pequeno frente ao total de US$ 18 bilhões que o Brasil vende internacionalmente.

“Mas é o mercado que paga o maior prêmio por tonelada e que vinha crescendo mais rápido, por isso, o setor trata a exclusão como estratégica, não apenas financeira. Perder a União Europeia também pode sinalizar fragilidade sanitária a outros compradores exigentes, casos de Japão e Coreia do Sul, mercados que o Brasil está tentando abrir agora”, pondera.

Vai ter o boi Europa?

Após a criação do boi China, Torres lembra que já existe o termo boi “Europa”, ou seja, animais de fazendas cadastradas na lista Trace, um cadastro que exige rastreabilidade individual e restrições no uso de certos produtos veterinários, habilitadas a exportar à União Europeia, sem precisar das exigências da Cota Hilton.

“Tanto essa categoria quanto o boi China recebem ágio sobre o preço pago ao produtor, variando conforme a época do ano e a oferta. Ainda assim, foi o boi China que ganhou maior notoriedade no mercado brasileiro.”

Em vista de toda essa problemática envolvendo os antimicrobianos, Torres ressalta que a indústria de nutrição já está posicionando no mercado produtos à base de probióticos, ácidos orgânicos, óleos essenciais e nucleotídeos como suporte à saúde intestinal e estabilidade ruminal. “O discurso dessas empresas é que a portaria ‘marca uma nova fase’, com foco em manejo sanitário, biossegurança e imunonutrição”, aponta.

Enquanto isso, o CEO da Scot destaca que a indústria farmacêutica não está se preparando para substituir os antimicrobianos, mas sim tentando evitar que eles sejam banidos do mercado interno, propondo segregação por cadeia ao invés de uma mudança nacional, ou seja, advogando que apenas quem exporta à União Europeia deve seguir um protocolo restrito de uso dessas substâncias.