Olá, queridas leitoras,
Governos se sucedem, planos econômicos mudam e mandatos cumprem seus calendários. Muito antes e além de qualquer conjuntura política, há uma verdade que não oscila: a terra exige trabalho contínuo e compromisso.
O agro brasileiro aprendeu a operar com resiliência diante de instabilidades fiscais e ruídos institucionais. Contudo, quando o debate nacional contrapõe Brasília e o campo — girando em torno de metas orçamentárias e disputas narrativas —, impõe-se a pergunta: de quem realmente falamos ao tratar do desenvolvimento do setor?
Por trás dos recordes de exportação, a base produtiva tem rosto, voz e demandas concretas. E esse rosto é feminino. As mulheres rurais não são pauta acessória; sustentam milhares de propriedades familiares e negócios no campo. Equilibram a lavoura, a lida direta, a família e a comunidade.
Ainda assim, a invisibilidade histórica delas persiste, agravada quando oscilações macroeconômicas encarecem o crédito e travam seu potencial. Sem garantias reais ou a titularidade da terra — herança de raízes patriarcais ainda presentes —, o acesso a linhas essenciais como o Pronaf Mulher torna-se restrito. Sem autonomia financeira, o ciclo de dependência se perpetua.
O impacto vai além da renda. A ausência de políticas públicas articuladas deixa o campo sem respostas para a saúde física e mental da mulher. A falta de conectividade, transporte e apoio psicossocial transforma a dupla ou tripla jornada em um fardo silencioso, dificultando o combate à violência doméstica e o acesso à capacitação técnica.
Superar esses entraves não é favor governamental: é imperativo de desenvolvimento. É nesse cenário que o empreendedorismo feminino ganha força transformadora: quando a produtora assume a liderança do próprio negócio, ela dinamiza toda a comunidade ao redor.
À frente da Comissão Semeadoras do Agro da Faesp, testemunhamos na prática essa virada de chave. Levar capacitação, conexão e apoio institucional às mulheres rurais não é assistencialismo; é estratégia econômica pura. O diálogo entre o Estado e o agronegócio precisa superar palanques para priorizar quem produz na ponta.
Ventos políticos mudam, mas o futuro do Brasil depende de enxergar que a riqueza do campo floresce quando garantimos à produtora espaço, respeito e autonomia.
Com carinho,
Juliana Farah, presidente da Comissão Semeadoras do Agro da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp)