O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, afirmou que o governo pretende manter as negociações com os Estados Unidos diante das barreiras comerciais impostas aos produtos brasileiros e defendeu a abertura de novos mercados como estratégia para reduzir os impactos sobre os setores afetados.
Confira a entrevista:
Geraldo Alckmin — É importante explicar para quem nos acompanha que a medida, o tarifaço, é extremamente injusta. Por quê? Porque, quando importamos produtos dos Estados Unidos, quando eles exportam para nós, a tarifa média é de 3,1%. Dos dez produtos que eles mais exportam para nós, sete têm tarifa zero.
Os Estados Unidos têm déficit na balança comercial com praticamente todo o mundo. No G20, só têm superávit com três países: Brasil, Reino Unido e Austrália. Então, o Brasil não é problema. Eles têm superávit na balança conosco, nosso imposto de importação é baixo, então não tem sentido esse tarifaço.
Nós vamos trabalhar para corrigir, porque isso é injusto. Não vamos sair da mesa de negociação, vamos continuar o diálogo para corrigir isso.
Claro que quem está mais atingido é a indústria. A maioria dos produtos agrícolas está fora do tarifaço, mas a indústria está mais afetada. Exportamos muito produto industrial para os Estados Unidos: carro, motor, máquinas, máquinas rodoviárias.
Vamos continuar a negociação. A outra frente é abrir novos mercados. No agro, por exemplo, foram 670 novos mercados. Tanto é que, no ano passado, mesmo com o tarifaço, batemos recorde de exportação.
Alckmin — Vejo que é possível, sim, o diálogo. Primeiro, na questão tarifária, nós já temos uma tarifa muito mais baixa do que os Estados Unidos. Mas sempre é possível procurar aprimorar algumas coisas.
A outra frente são as questões não tarifárias. Os Estados Unidos são o maior investidor no Brasil. Temos mais de 3 mil empresas americanas trabalhando aqui. A General Motors, por exemplo, está há mais de 100 anos no Brasil. É importante aproveitar oportunidades de complementaridade econômica e de investimentos recíprocos.
Há questões não tarifárias, por exemplo, no setor de açúcar e álcool. Em uma conversa que tive com o embaixador Greer e com o secretário Howard Lutnick, foi colocada a questão do certificado para a exportação de etanol e nós resolvemos praticamente em uma semana.
Você pode ter também a questão dos data centers. O Brasil tem energia abundante e renovável, então podem investir aqui. Há ainda os minerais estratégicos. O Brasil tem a segunda reserva do mundo de terras raras. Acho que há muito espaço para complementaridade.
Também fizemos o acordo Mercosul-Singapura depois de 14 anos. Temos Mercosul-EFTA, com países de altíssima renda per capita, e o acordo Mercosul-União Europeia.
Outra questão é apoiar quem foi afetado. Há empresas que dependem muito das exportações para os Estados Unidos, especialmente na indústria. Fizemos o Brasil Soberano, com R$ 18,5 bilhões em crédito.
Esse crédito não é só para quem exporta, mas também para quem fornece ao exportador. Às vezes, tenho uma fábrica ao lado de outra que produz máquinas para exportação. Quando ela deixa de exportar, a fornecedora também é afetada. Então, a cadeia também pode entrar no Brasil Soberano.
E a outra frente é buscar mercado para esses setores afetados. Apex e BNDES vão trabalhar rapidamente para procurar colocar esses produtos em novos mercados.
Alckmin — Há 50 anos, o Brasil era importador de alimentos. Neste ano, vamos passar os Estados Unidos e ser o maior exportador de alimentos do mundo. Mudamos totalmente.
Hoje, o Brasil tem a agricultura tropical mais competitiva do mundo. Somos o primeiro exportador mundial de carne bovina, o primeiro em carne de frango e o terceiro em carne suína.
Temos duas dificuldades. Uma é com a União Europeia, que, em razão da questão dos antimicrobianos, tem uma restrição prevista a partir de setembro. Estamos trabalhando em diálogo permanente, com o Ministério da Agricultura e os setores da União Europeia.
A outra é a China. Exportávamos 1,6 milhão de toneladas e foi reduzido para 1,1 milhão de toneladas. Todo ano aumenta um pouco, mas é muito pouco diante do tamanho do nosso mercado.
A boa notícia é que agora, em agosto, vem uma missão da Coreia do Sul. A Coreia fará uma inspeção sanitária e tenho certeza de que o Brasil será muito bem avaliado. Estamos procurando outros mercados.
Alckmin — A China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil. É quem mais compra do Brasil e com quem temos um superávit muito grande na balança.
Agora, a China compra muitas commodities: petróleo bruto, minério de ferro, carne, soja, café, milho. Compra muita commodity e menos produto industrial. Essa é a diferença em relação aos Estados Unidos, que compram mais produtos industriais.
O presidente Lula tem conversado tanto com a China quanto com a União Europeia. Estamos trabalhando e abrindo novos mercados.
Estamos vivendo um certo protecionismo no mundo. Esse é um fato. O Brasil defende o multilateralismo, a abertura de mercados e novos mercados.
Estamos conversando com Canadá, Emirados Árabes, Índia e México. Existe espaço para avançarmos.
Alckmin — Não, ainda não tem resposta. No frango, a adaptação é mais rápida porque o ciclo é de 45 dias. Então, é possível se adaptar rapidamente.
O boi já é mais demorado, por isso todo o empenho para retirar essa restrição.
E veja que o Brasil é um exemplo de modelo sanitário. Somos hoje exportadores de carne sem vacinação contra a febre aftosa. O Brasil é livre de febre aftosa sem vacinação. Também somos livres de gripe aviária. Então, o Brasil tem um bom padrão sanitário, reconhecido internacionalmente.
Alckmin — A agroindústria é muito importante. Na Nova Indústria Brasil, a missão número um é agroindústria, é agregar valor ao agro. Se eu sou campeão no agro, vou industrializar, agregar valor e gerar mais emprego no Brasil.
Os biocombustíveis, seja etanol, seja biodiesel, representam um grande avanço. E, em um momento de guerras e conflitos regionais, isso é ainda mais importante.
O Brasil é o sexto maior produtor de petróleo do mundo, mas importa derivados, como diesel e gasolina. Quando coloco 15% de biodiesel, por exemplo, a partir do óleo de soja, estou agregando valor à soja e aos grãos e deixo de importar parte do diesel.
A mesma coisa acontece com a gasolina. Coloco 32% de etanol anidro e deixo de importar gasolina. Dentro de cinco ou seis anos, vamos ficar também independentes na questão dos derivados de petróleo.
Alckmin — Aumentou muito o etanol de milho, o que também é bom porque você produz etanol e, com aquela massa proteica, faz DDG. Então, vira carne, ovo, frango, gera proteína animal.
O que o governo fez? Há três anos, eram 27,5% de etanol na gasolina. Aumentamos para 30% e, na semana passada, para 32%. Tivemos aumento de quase 20% da demanda de etanol para misturar à gasolina, reduzindo nossa importação.
O biodiesel era 10% e aumentamos para 15%, 50% a mais.
A outra frente é convencer o mundo a também descarbonizar e gastar menos combustível fóssil. Vejo uma possibilidade no SAF, que vai substituir o querosene dos aviões. Quem pode produzir SAF? Brasil, Índia e Estados Unidos.
Na navegação marítima, também já existem empresas de cabotagem comprando etanol e substituindo diesel por outros combustíveis. Vejo, sim, uma possibilidade com as mudanças climáticas e a necessidade de emitir menos carbono.
Alckmin — Tudo precisa de teste. Não vamos passar de 15% para cima sem ter os testes. Eles estão sendo feitos no Instituto Mauá de Tecnologia. Tudo é feito por meio de testes e só depois aprovado.
No caso do etanol, temos o carro 100% etanol. Eu, por exemplo, tenho carro flex e só coloco etanol.
Os biocombustíveis fazem diferença. Eles emitem muito menos carbono.
Outro exemplo de estímulo ao biocombustível é o carro sustentável. Tiramos o IPI. Era 7% e hoje é zero. É um carro de entrada, com 80% de reciclabilidade, que não pode emitir mais do que 83 gramas de CO2 por quilômetro rodado. Seis montadoras se adequaram.
Estamos retirando o imposto para ajudar a despoluir, combater as mudanças climáticas, gerar emprego e agregar valor no campo.
Alckmin — Temos um fato real: queda no preço das commodities no mundo. Alguns setores estão muito bem, como café, carne e frutas. Já os grãos enfrentam dificuldades.
A economia é cíclica. Uma hora o preço cai, e isso coincidiu com a guerra no Oriente Médio e o aumento do preço dos combustíveis. Então, temos, de um lado, queda do preço das commodities e, do outro, aumento dos custos de produção.
O governo brasileiro agiu. Tiramos o imposto do diesel e demos uma subvenção. Não temos como acabar com a guerra, mas podemos minimizar os efeitos.
O que o governo fez? Plano Safra, com R$ 610 bilhões, e renegociação das dívidas.
Um fato novo colocado na lei é o fundo garantidor. É preciso ter um fundo garantidor porque, senão, a pessoa tem dificuldade de acessar o crédito. O fundo garantidor faz diferença.
E colocaria outra questão relevante, que ainda precisa ser equacionada: aumentar o seguro rural. Em razão das mudanças climáticas e até do El Niño, é preciso ter um seguro rural mais robusto. Esse é um tema que está na mesa hoje.
Alckmin — Foi feito um Plano Safra recorde, de R$ 610 bilhões. A tomada de crédito aumenta muito a partir de setembro e outubro.
A outra questão são os inadimplentes, quem pegou dinheiro lá atrás e teve dificuldade para pagar. O governo, em parceria com o Congresso, fez um programa de renegociação de R$ 100 bilhões, inclusive dando prioridade para quem foi atingido pelas questões climáticas, perdeu safra ou produção.
E vem um instrumento novo, que é o fundo garantidor. O banco, claro, tem receio de emprestar. Então, o fundo garantidor vai ajudar a melhorar o acesso ao crédito.
Além disso, fizemos o Move Agro, para pessoa física e jurídica, com taxa de 9,2% para compra de tratores, colheitadeiras e implementos. Também fizemos o Move Caminhões. O Finame estava em 23% e passamos a financiar a 12% caminhões e implementos.
O governo tem feito um conjunto de medidas. É preciso reduzir o Custo Brasil, melhorar a logística, abrir mercados e apoiar aqueles que foram atingidos pelo tarifaço.
Alckmin — Esse mercado tem uma regra própria. Há setores que estão bem, como café, carne e frutas, e há setores, especialmente os grãos, que dependem do preço internacional das commodities e enfrentaram aumento de custos, especialmente de fertilizantes e combustíveis.
Na questão dos fertilizantes, retomamos quatro fábricas para produzir nitrogenados. Também estamos procurando fornecedores para suprir a demanda.
No caso do potássio, depois de dez anos de disputa judicial, devemos ter avanço na produção no Amazonas.
Também precisamos melhorar a logística, trabalhar pela Ferrogrão, integrar modais, reduzir o Custo Brasil, abrir novos mercados, ampliar a oferta de crédito e fortalecer o seguro rural.
Alckmin — Vejo de maneira positiva. O que é o manicômio tributário? O Brasil é o país dos impostos. Isso cria custo. É preciso ter um exército de pessoas só para pagar imposto. E, de outro lado, há judicialização.
O primeiro objetivo da reforma tributária foi simplificar. Pegamos cinco impostos — IPI, PIS, Cofins, ICMS e ISS — e caminhamos para um IVA dual.
O mundo fez isso há 40 anos. Estamos atrasados, mas finalmente foi feito.
Você simplifica e traz eficiência econômica porque desonera totalmente o investimento e desonera a exportação. Hoje, quando exporto um trator, não pago imposto para exportar, mas já paguei imposto quando comprei o aço. Você retira essa cumulatividade. Hoje, indiretamente, você está exportando imposto e perdendo competitividade.
Há um estudo do Ipea que mostra que, em 15 anos, a reforma tributária pode fazer o PIB crescer 12%, os investimentos 14% e as exportações 17%.
Outra coisa boa para quem está nos acompanhando é a desoneração completa da cesta básica. Hoje tem comida que paga imposto. Haverá desoneração completa da cesta básica.
Alckmin — Essa é a nossa agenda estratégica: melhorar a logística em um país continental, reduzir custos, melhorar o crédito, garantir seguro, ter fundo garantidor para o agricultor poder acessar financiamento e também abrir mercados.
Porque, se eu não abro mercado e o meu vizinho tem preferência tarifária, eu fico para trás. Então, é preciso também garantir mercado.