Por Renato Rodrigues*
Existe um movimento acontecendo no agronegócio brasileiro que merece atenção. Enquanto o mercado de fertilizantes convencionais praticamente estagnou nos últimos anos, um segmento específico cresceu quase 19% em 2024 e acumula expansão média de 10% ao ano desde 2021. Estamos falando dos fertilizantes especiais — e entender essa mudança é entender o futuro da produção de alimentos no país.
Dois mercados, duas velocidades
Os números contam uma história clara de desacoplamento. Veja a evolução dos últimos cinco anos:
Ano Fertilizantes Especiais Crescimento Convencionais (crescimento)
2021 ~R$ 18-20 bi base +5-7% (recuperação pós-pandemia)
2022 R$ 22,1 bi +2-5% +0,5-1% (estagnação)
2023 R$ 22,64 bi +2% ~0% (impacto El Niño)
2024 R$ 26,9 bi +18,9% +0,5%
2025 R$ 29-32 bi (projeção) +10-15% +3-5%
Fonte: Abisolo
A tendência é consistente: enquanto os especiais mantêm uma Taxa de Crescimento Anual Composta (CAGR) de aproximadamente 10%, os convencionais crescem menos de 2% ao ano em média. Projeções indicam que o mercado de especiais deve alcançar US$2,64 bilhões até 2030, capturando entre 10% e 15% do mercado total de fertilizantes — com potencial de gerar R$990 bilhões em valor agregado até 2035.
Dentro desse universo, os fertilizantes minerais especiais lideram a expansão, com crescimento de 30,7% em 2024. Mas o dado mais revelador talvez seja outro: nos últimos quatro anos, 129 novas empresas entraram nesse mercado, elevando o total de players ativos para 872. A maioria dessas novas entrantes está focada em bioinsumos e produtos de liberação controlada — segmentos que combinam eficiência agronômica e foco em sustentabilidade – ambiental, econômica e social.
O que explica essa divergência
A resposta passa por uma mudança de mentalidade no campo. O produtor mais técnico deixou de olhar fertilizante como commodity e passou a encará-lo como tecnologia. E tecnologia se avalia por resultado, não por preço de tonelada.
Fertilizantes convencionais entregam NPK em volume. Fertilizantes especiais entregam precisão: nutriente certo, no momento certo, na forma mais absorvível pela planta. A diferença parece sutil, mas os impactos são substanciais.
Enquanto a eficiência de uso de nutrientes (NUE) dos fertilizantes convencionais gira em torno de 40% a 50%, os especiais alcançam índices superiores a 70%. Isso significa que, para cada quilo de nutriente aplicado, a planta aproveita significativamente mais. O restante, no caso dos convencionais, se perde por lixiviação, volatilização ou simplesmente fica indisponível no solo.
O retorno sobre investimento reflete essa diferença: estudos apontam ROI de 3 a 5 vezes superior nos especiais em culturas como soja e milho. Em um cenário de custos pressionados, essa diferença de eficiência se traduz diretamente em margem.
Há ainda um dado que impressiona: a maior eficiência dos fertilizantes especiais tem contribuído para uma economia estimada de 5,8 milhões de hectares — área que não precisou ser incorporada à produção graças ao ganho de produtividade por hectare já cultivado.
Quem está liderando esse movimento
O perfil do adotante de fertilizantes especiais é revelador. Segundo dados da Abisolo, a cultura da soja responde por 42% do faturamento do segmento, reflexo das grandes áreas cultivadas e da busca por produtividade em ambientes cada vez mais desafiadores. Mas o crescimento recente vem de outras frentes: milho, cana-de-açúcar e o setor sucroalcooleiro como um todo têm ampliado significativamente o uso de especiais.
Geograficamente, Mato Grosso, São Paulo, Goiás e Paraná concentram cerca de 60% da demanda. Mas há um movimento emergente que merece atenção: a região do Matopiba registrou crescimento de 20% na adoção de fertilizantes especiais, sinalizando que a tecnologia está se espalhando para as novas fronteiras agrícolas.
Entre os grandes players do setor, algumas multinacionais mantêm presença forte, mas o mercado brasileiro tem uma característica interessante: forte participação de empresas nacionais. Essas empresas investem em média 2,8% do faturamento em P&D — um índice relevante para o setor de insumos — e têm sido responsáveis por inovações adaptadas às condições tropicais brasileiras.
Por que isso importa além da porteira
O crescimento dos fertilizantes especiais não é apenas uma história de mercado. É uma história de transformação do sistema produtivo brasileiro.
O Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes que consome, principalmente potássio e fósforo. Essa dependência representa vulnerabilidade: oscilações cambiais, tensões geopolíticas e gargalos logísticos afetam diretamente o custo de produção. Os fertilizantes especiais têm forte componente nacional — o que reduz a exposição ao dólar e contribui para maior soberania produtiva.
Além disso, a nutrição vegetal eficiente está diretamente conectada à qualidade do alimento que chega à mesa do consumidor. Plantas bem nutridas produzem grãos com maior teor de proteína e micronutrientes. Esse é um elo frequentemente ignorado quando se discute segurança alimentar: não basta produzir volume, é preciso produzir qualidade nutricional.
O III Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Plansan), publicado em março de 2025, reconhece essa conexão ao estabelecer como uma de suas diretrizes o fomento a sistemas alimentares resilientes e à produção de alimentos saudáveis. A meta de tirar o Brasil do Mapa da Fome até 2026 passa, também, pela qualidade do que se produz — e isso começa na nutrição da planta.
O que esperar daqui para frente
Os drivers de crescimento estão alinhados: a agricultura de precisão permite aplicações cada vez mais direcionadas; o Plano ABC+ incentiva práticas de baixo carbono; e a busca por eficiência econômica empurra o produtor para tecnologias que entregam mais resultado por unidade de insumo.
A integração com ferramentas digitais — drones, sensores, sistemas de gestão — tende a acelerar essa adoção. O produtor que já opera com alta tecnologia encontra nos fertilizantes especiais um complemento natural para sua estratégia de máxima eficiência.
Para quem ainda olha fertilizante apenas pelo preço da tonelada, o recado do mercado é claro: essa conta está mudando. O custo relevante não é o que se paga pelo insumo, mas o que se deixa de colher por ineficiência. E nessa equação, os especiais têm mostrado vantagem consistente.
A virada no mercado de fertilizantes não é uma tendência passageira. É uma mudança estrutural. E quem entender isso primeiro estará melhor posicionado para capturar os ganhos que ela oferece.
Este é o primeiro artigo da série “Nutrição de Plantas e Segurança Alimentar”. No próximo texto, vamos examinar as evidências científicas que sustentam a eficiência dos fertilizantes especiais — e o que Embrapa, Universidades e publicações internacionais já comprovaram sobre o tema.
Fontes consultadas:
● Abisolo — Anuário 2024 e dados de mercado (2021-2025)
● AgFeed — Reportagens sobre fertilizantes especiais
● Ministério do Desenvolvimento Social — III Plansan 2025-2027
● CNA/MAPA — Dados de importação de fertilizantes
*Renato de Aragão Ribeiro Rodrigues é biólogo, doutor em Geoquímica Ambiental.
Diretor de Negócios Nacionais e Internacionais da Capital AgroInvestors.
Professor Fundação Dom Cabral, coordenador da Sub-rede Agricultura da Rede Clima e do GT de Metodologias do Mercado de Carbono da Câmara de Agrocarbono do MAPA, além de membro do Comitê de Sustentabilidade da ABAG. Com mais de 20 anos de trajetória, atua também como consultor, palestrante e conselheiro, com participação ativa em fóruns internacionais sobre clima e agricultura, como o IPCC e a UNFCCC.
Tem forte trajetória no setor privado, passando por diversas empresas do mercado de carbono e no setor público, com carreira em Organismos Internacionais e na Embrapa, onde foi pesquisador, gestor e presidente da Associação Rede ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta).