Olá, queridas leitoras,
A história da agricultura brasileira é indissociável da força de trabalho feminina. No entanto, por gerações, as mulheres do campo enfrentaram barreiras invisíveis que limitaram seu acesso aos direitos mais básicos, a começar pela educação formal. Hoje, o desafio da alfabetização tardia surge não apenas como uma pendência social, mas como um passo crucial para a emancipação e a dignidade de milhares de produtoras rurais que aprenderam a ler a terra muito antes de decifrarem as letras.
O analfabetismo ou o letramento incompleto na maturidade não decorrem de falta de interesse, mas de uma trajetória marcada pela privação de tempo e de oportunidades. Desde a infância, muitas dessas mulheres foram inseridas no trabalho braçal para o sustento familiar. Ao longo da vida, essa rotina se desdobrou em jornadas duplas ou triplas, que acumulam o manejo das lavouras, o cuidado com a casa, a criação dos filhos e a gestão comunitária. Diante de tantas frentes, a escola foi frequentemente colocada em segundo plano.
Ficar à margem da leitura e da escrita impõe dificuldades práticas diárias no meio rural moderno. Sem o domínio do letramento, tarefas como interpretar o rótulo de um insumo agrícola, compreender as cláusulas de um contrato de financiamento, emitir uma nota fiscal ou até mesmo utilizar ferramentas digitais de precisão tornam-se obstáculos complexos. Alfabetizar essas mulheres na idade adulta significa, portanto, integrá-las ativamente à economia do agronegócio e devolver-lhes a autonomia sobre suas próprias produções.
Ciente dessa realidade, a Comissão Semeadoras do Agro, da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), atua juntamente com o Senar-SP no enfrentamento dessas vulnerabilidades. Ao conectar o desenvolvimento técnico e o empreendedorismo à valorização humana, a comissão identifica a educação como o pilar central para a sucessão rural e a liderança feminina. O trabalho das Semeadoras do Agro vai além do estímulo à produtividade: busca viabilizar parcerias e iniciativas que acolham essas mulheres em suas realidades, respeitando seus tempos e saberes acumulados.
Garantir o acesso à escrita para a mulher do campo é reconhecer que o conhecimento é a ferramenta de cultivo mais poderosa. Permitir que elas assinem a própria história é o caminho definitivo para que continuem alimentando o país, mas agora, como donas e protagonistas de seus próprios destinos.
Com carinho,
Juliana Farah, presidente da Comissão Semeadoras do Agro da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp)