*Por Leandro Justino
O crédito rural vive um momento de maior seletividade. Depois de safras marcadas por juros altos, custos elevados, problemas climáticos e avanço do endividamento, aumentou também o nível de exigência sobre quem busca financiamento. Mais informação, controle e previsibilidade passaram a fazer parte da conversa.
É um movimento compreensível. Mas há uma questão que vem antes da relação entre produtor e credor: saber quanto a propriedade realmente ganha.
Faturamento não é lucro. E lucro não significa, necessariamente, dinheiro disponível.
Uma fazenda pode comercializar R$10 milhões, R$20 milhões ou R$ 40 milhões em uma safra e chegar ao fim do ciclo com pouco caixa. Isso não significa que a atividade seja inviável. Boa parte daquele dinheiro, muitas vezes, já tinha destino antes mesmo de entrar na conta.
A agricultura tem essa particularidade. O produtor passa meses preparando o solo, comprando insumos, pagando funcionários, abastecendo máquinas, contratando serviços e assumindo compromissos antes de receber pela produção. Quando vende, a entrada de recursos é concentrada e pode dar uma impressão de liquidez que não corresponde à realidade.
Parte da receita pagará fornecedores, financiamentos, CPRs, arrendamentos, impostos e manutenção. Outra parte precisa permanecer na propriedade para ajudar a financiar o próximo ciclo. É somente depois dessa conta que começa a aparecer o dinheiro efetivamente disponível.
Num setor que movimenta volumes cada vez maiores, essa distinção ganha importância. O Plano Safra 2026/27 prevê R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, sendo R$ 384,9 bilhões para custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões para investimentos. E esse dinheiro representa apenas uma parte do financiamento do agro. CPRs, cooperativas, tradings, revendas, recursos livres dos bancos e mercado de capitais ampliaram as alternativas, e também tornaram a estrutura financeira das propriedades mais complexa.
Por isso, olhar apenas para faturamento, patrimônio ou garantia diz cada vez menos sobre a saúde de um negócio rural. A capacidade de gerar caixa depois de honrar os compromissos talvez diga muito mais.
Uma propriedade pode ter terra, máquinas modernas e produção relevante e, ainda assim, enfrentar problemas de liquidez. Outra, menor e com patrimônio mais modesto, pode apresentar custos controlados, endividamento compatível e maior previsibilidade financeira. Para quem concede crédito, entender essa diferença é tão importante quanto para quem toma.
Há ainda uma característica muito própria do campo brasileiro. Em inúmeras propriedades, empresa, patrimônio e família cresceram juntos. A terra atravessou gerações, a administração permaneceu familiar e as fronteiras entre o dinheiro da atividade e o dinheiro dos proprietários nem sempre ficaram bem definidas.
Uma pesquisa divulgada pelo Sebrae em janeiro ajuda a dimensionar esse comportamento: 61% dos pequenos empreendedores brasileiros afirmaram fazer pagamentos da empresa usando a conta pessoal. Em levantamento anterior, de 2023, a proporção chegava a 65% entre os entrevistados da agropecuária.
Não significa que essa realidade represente todo o campo brasileiro. Mas ajuda a mostrar por que separar os dois caixas continua sendo uma questão importante.
Justamente, aqui que entra a famosa caminhonete. O problema nunca foi o veículo. Nem a casa, a viagem ou qualquer outro patrimônio adquirido por uma família que trabalhou e prosperou. O produtor tem todo o direito de usufruir do resultado da atividade. A pergunta é: de onde saiu o dinheiro?
No atual momento do crédito rural também pode representar uma oportunidade para melhorar a qualidade dessa relação. Instituições financeiras precisam de mais informações para avaliar risco, mas o produtor também precisa de análises que consigam enxergar sua operação para além do patrimônio oferecido como garantia.
São questionamentos importantes que precisam ser abordados durante o processo do crédito: Quanto custa produzir? Quanto da receita já está comprometido? Qual é o calendário de vencimentos? Quanto será necessário para a próxima safra? Qual é a exposição a preços, clima e produtividade? Quanto caixa sobra depois disso?
Com mais dados, tecnologia e capacidade de acompanhamento, essas respostas estão cada vez mais acessíveis. Esses pontos são importantes justamente porque ajudam a distinguir um produtor que enfrenta uma dificuldade conjuntural de outro cujo modelo financeiro apresenta um problema estrutural.
O crédito saudável não depende apenas de mais garantias ou de uma análise mais dura. Depende de informação suficiente para diferenciar riscos.
Nos dois primeiros meses da safra 2026/27, julho e agosto, a agricultura empresarial contratou R$ 65,7 bilhões em crédito rural, em mais de 70 mil operações. As CPRs responderam por R$ 32,4 bilhões, ou 49,2% do volume contratado no período.
O agro continuará precisando de muito capital. A próxima etapa de profissionalização, porém, talvez não esteja simplesmente em acessar mais dinheiro, mas em entender melhor o dinheiro que já passa pela propriedade.
E essa discussão ganha uma dimensão ainda maior diante do cenário político que começa a se desenhar após as eleições. A nova composição do Congresso Nacional terá pela frente decisões diretamente ligadas à capacidade de financiamento e investimento do campo. A renegociação das dívidas rurais é uma das mais imediatas: a MP 1.376/2026, que permite a renegociação de débitos de produtores afetados por perdas de safra, precisa ser analisada pelo atual Congresso até novembro para não perder a validade.
Para a próxima legislatura, temas como crédito rural, seguro, endividamento, tributação e segurança jurídica continuarão exigindo atenção. No licenciamento ambiental, com a nova legislação já em fase de implementação, o desafio passa também pela aplicação das regras e pela construção de previsibilidade para quem precisa decidir investimentos de longo prazo.
A configuração política também mudou. O PL terá a maior bancada tanto na Câmara quanto no Senado a partir de 2027, em um Congresso no qual as pautas ligadas ao setor produtivo deverão continuar com peso relevante. Independentemente da composição do próximo governo, será nesse ambiente que boa parte das regras capazes de afetar o custo, a disponibilidade e a segurança do crédito rural será discutida.
Talvez seja esse um dos próximos desafios do debate sobre financiamento do agro: não discutir apenas quanto dinheiro estará disponível, mas em quais condições ele chegará ao produtor e como criar um ambiente que permita separar dificuldades conjunturais de problemas estruturais.
No fim da safra, portanto, faturar milhões é apenas uma parte da história. A conta que realmente importa é quanto sobra depois de pagar o passado, financiar o presente e preparar a próxima safra. Só então é possível saber quanto daquele dinheiro realmente pertence ao produtor.
*Leandro Justino , especialista em crédito rural e diretor da Plantae Agrocrédito, instituição financeira com sede em Presidente Prudente/SP, atua em vários segmentos do agro e tem parcerias com grandes empresas do ramo de pecuária, como MFG, Marfrig e Minerva, setor sucroenergético, com Tereos, Cocal, Grupo CMAA, Energética Santa Helena, Viterra Bioenergia, ATVOS, além do segmento de grãos com COFCO, ADM, Cargill, entre outras.