A Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TBCA), da Universidade de São Paulo (USP), deixou de ser apenas uma base de dados para se transformar em um ecossistema digital que reúne informações, ferramentas computacionais, metodologias e aplicações voltadas à pesquisa, à saúde pública e à inovação.
A tabela compila atualmente 6.182 alimentos e ingredientes, conta com cerca de 3 mil acessos por dia e 600 mil usuários por ano, inclusive de outros países. Agora a iniciativa entra em uma nova etapa: buscar alternativas de financiamento que permitam manter o acesso aberto e assegurar a sua atualização, manutenção e expansão.
“Hoje, a TBCA não é só uma tabela. É um banco de dados orgânico, com muito mais informação do que apenas os componentes dos alimentos e preparações. Isso permitiu criar ferramentas que levam esses dados a pesquisadores e outros usuários em formatos que vão muito além de uma planilha ou de um PDF”, afirmou a pesquisadora da área de nutrição responsável pelo desenvolvimento das ferramentas ligadas à TBCA, Kristy Soraya Coelho.
Produtos derivados
Além de crescer em volume, a tabela passou a gerar produtos derivados: bases de dados voltadas a finalidades específicas, manuais técnicos, aplicativos, ferramentas computacionais e metodologias adotadas em iniciativas latino-americanas.
A trajetória ajuda a mostrar como uma infraestrutura científica, quando mantida e atualizada de forma contínua, pode ampliar seu impacto muito além do projeto que lhe deu origem.
O crescimento foi sustentado por um trabalho pouco visível para quem consulta os valores de energia, proteínas, vitaminas ou minerais na tela: a avaliação da origem e da qualidade de cada informação. Os dados podem vir de análises laboratoriais, publicações científicas, outras bases ou documentos de produtos.
Antes de serem incluídos na TBCA, passam por critérios de identificação do alimento, amostragem, tratamento das amostras, método analítico, forma de expressão dos resultados e compatibilidade entre os dados.
“A avaliação da qualidade passa pela documentação. Toda tabela precisa explicar de onde vieram os dados, quais métodos analíticos foram considerados e como os cálculos, caso existam, são feitos. Compilar não é apenas coletar informações”, explicou a pesquisadora responsável pela compilação e revisão dos dados de alimentos in natura e ingredientes e pela agregação dos dados da TBCA, Eliana Bistriche Giuntini.
Novas aplicações
A versão mais recente da tabela, a 7.3, reúne cerca de 1.800 alimentos in natura e ingredientes. Na atualização, foi incorporada uma base com 306 preparações de dietas hospitalares, construída em parceria com o Serviço de Nutrição e Dietética do Instituto Central do Hospital das Clínicas (HC) da USP.
A capacidade de detalhar as receitas é um dos diferenciais da tabela. Para avaliar o que uma população efetivamente consome, não basta saber a composição de um prato pronto: é preciso desagregá-lo e identificar quanto há de cada ingrediente, além das transformações provocadas pelo cozimento, pela perda ou pelo ganho de água e pela adição ou perda de gordura.
Essa estrutura permitiu que a TBCA fosse usada como ferramenta de apoio à análise do consumo alimentar da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani) de 2019, financiado pelo Ministério da Saúde.
Harmonizada com os bancos das pesquisas de 2008-2009 e 2017-2018, a base auxiliou a avaliação de mais de 65 mil registros de alimentos e 84 mil recordatórios alimentares de 24 horas. Os resultados desse tipo de levantamento ajudam a identificar padrões de consumo e possíveis inadequações nutricionais, oferecendo subsídios para pesquisas e políticas públicas.
Ao organizar e documentar as etapas de compilação, agregação e cálculo de receitas, a equipe transformou conhecimento acumulado em produtos que podem ser replicados. Em 2023, lançou o e-book Metodologia para calcular a composição química de preparações a partir de receitas: um guia prático.
Em 2025, publicou o manual de agregação de dados em português; a versão em espanhol saiu em fevereiro deste ano. Uma edição revisada e ampliada do guia de receitas em espanhol está prevista para outubro de 2026, e a revisão do manual de compilação está em preparação.
As metodologias também estão sendo convertidas em códigos. Uma ferramenta poderá automatizar o cálculo da composição química das preparações, de forma a integrá-lo à área administrativa da TBCA. Hoje, os cálculos são feitos fora do sistema e depois inseridos na base; em breve, ocorrerão dentro da própria plataforma e poderão ser atualizados quando um ingrediente for revisto.
Outras soluções estão em diferentes fases de desenvolvimento: uma voltada ao cálculo das informações exigidas na rotulagem nutricional; um protótipo que permitirá a pesquisadores coletar recordatórios alimentares e vinculá-los a bases nacionais de composição de alimentos; e uma ferramenta para gerar planos alimentares personalizados.
Há ainda um projeto para adaptar esse conhecimento à dieta cetogênica – em que os carboidratos da alimentação são substituídos por gorduras – usada no tratamento da epilepsia farmacorresistente, com alimentos e preparações compatíveis com a realidade brasileira.