A reunião entre Donald Trump e Xi Jinping não resultou em novos volumes de compra de soja dos Estados Unidos nem em mudanças nas condições comerciais para o produto americano. Com isso, permanece em aberto a disputa entre Brasil e Estados Unidos pela demanda chinesa nos próximos meses.
Atualmente, a China já contratou cerca de 43,37 milhões de toneladas de soja, o equivalente a 39,4% de uma necessidade estimada em 111 milhões de toneladas para a temporada. O volume contratado é superior ao registrado no mesmo período do ano anterior, quando a cobertura estava em 31,3%.
Entre as principais origens, o Brasil aparece com aproximadamente 28 milhões de toneladas contratadas pela China, enquanto os Estados Unidos somam 13,73 milhões de toneladas. Argentina e Uruguai respondem por cerca de 1,65 milhão de toneladas.
No caso dos Estados Unidos, aproximadamente 55% do compromisso anual de 25 milhões de toneladas já foi contratado. Restam, portanto, cerca de 11,3 milhões de toneladas para completar o volume previsto. Até o momento, não houve anúncio de ampliação desse compromisso após o encontro entre os líderes americano e chinês.
Segundo Isabella Pliego, analista de Inteligência e Estratégia da Biond Agro, o ritmo das próximas compras chinesas será fundamental para determinar como a demanda será distribuída entre as duas principais origens.
“A China entra nos próximos meses com uma parcela importante da sua necessidade já coberta e, por isso, pode esperar para avaliar preços, disponibilidade e as condições comerciais antes de ampliar as compras. O ponto de atenção passa a ser dezembro e o início de 2027, quando essa cobertura diminui e a nova safra brasileira começa a ganhar espaço”, destaca.
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Cobertura diminui a partir de dezembro
A posição da China é mais confortável no curto prazo. Para outubro, a demanda está praticamente toda coberta, com 10,49 milhões de toneladas contratadas para uma necessidade estimada em 10,5 milhões. Em novembro, a cobertura chega a 69%.
A partir de dezembro, porém, o percentual diminui para 40% e chega a apenas 17% em janeiro. Em fevereiro, a cobertura é de 26%; em março, sobe para 56%; e, em abril, alcança 44%.
Esse movimento abre espaço para uma nova rodada de compras, justamente no período em que a nova safra brasileira começa a ganhar disponibilidade.
“Completar as 25 milhões de toneladas previstas mantém uma demanda que já está no cenário. O que pode mudar a percepção do mercado é a existência de compras acima desse volume e, principalmente, o ritmo dessas compras. Para o Brasil, será importante acompanhar se a China vai antecipar parte das necessidades ou esperar pela chegada da nova safra”, explica Isabella.
Brasil e EUA disputam a demanda chinesa
A sazonalidade da oferta também influencia a origem das compras. Nos meses de outubro e novembro, os Estados Unidos apresentam maior disponibilidade em função da entrada da nova safra americana.
Em outubro, os EUA têm aproximadamente 6,40 milhões de toneladas contratadas pela China, contra 3,30 milhões do Brasil. Em novembro, são 2,90 milhões de toneladas americanas e 2,11 milhões brasileiras.
O cenário começa a mudar nos meses seguintes. Para fevereiro, o Brasil já possui cerca de 2,11 milhões de toneladas contratadas; em março, são 6,73 milhões; e, em abril, 5,48 milhões.
A combinação entre a redução da cobertura chinesa e o aumento da disponibilidade da nova safra brasileira tende a colocar Brasil e Estados Unidos em uma disputa mais direta pela demanda a partir de dezembro e, principalmente, no início de 2027.
Diferença tarifária segue no radar
Outro fator importante nessa disputa é a diferença tarifária. A soja americana está sujeita a uma sobretaxa adicional de 10% para entrar no mercado chinês, além da tarifa básica de 3%, totalizando 13%. Para a soja brasileira, permanece a tarifa básica de 3%.
Nesse cenário, preços, tarifas, disponibilidade de cada origem e o nível de cobertura da demanda chinesa serão determinantes para os próximos movimentos do mercado.
Para Chicago, o comportamento das 11,3 milhões de toneladas que ainda faltam para completar o compromisso americano será um dos principais pontos de atenção. Compras suficientes apenas para atingir os 25 milhões de toneladas previstos mantêm o fluxo esperado, enquanto volumes adicionais podem alterar a percepção sobre a demanda pela soja americana.
Para o Brasil, o foco está no momento em que a cobertura chinesa começar a diminuir e a nova safra ganhar disponibilidade.
“O mercado precisa olhar além do volume total que a China vai importar. É importante observar quanto já está coberto, para quais meses, de qual origem vem essa soja e quanto ainda falta comprar. É essa combinação que vai mostrar como a demanda será dividida entre Brasil e Estados Unidos e quais podem ser os reflexos sobre Chicago e os prêmios brasileiros”, conclui Isabella.