Olá, queridas leitoras,
Por décadas, a história do campo insistiu em reservar às mulheres o papel coadjuvante dos bastidores — uma invisibilidade cômoda para a tradição, mas incompatível com a realidade de quem sempre foi esteio, trabalho diário e força motriz da terra. Romper essas amarras não é um ato de concessão; é um imperativo de justiça histórica e de inteligência econômica.
Quando olho para o que vivenciamos no último dia 28 de agosto, em Ribeirão Preto, compreendo a dimensão exata dessa virada de chave. O 4º Encontro Estadual de Mulheres do Agro, realizado pelo Sistema Faesp/Senar e Sebrae-SP, não foi apenas um evento grandioso: foi um marco divisório. Reunir um público recorde de 5.700 mulheres vindas de 109 caravanas municipais, além de dezenas de expositoras de todas as regiões paulistas, é a prova irrefutável de que o campo não apenas tinha sede de conexão, mas estava pronto para assumir as rédeas do próprio destino.
Essa mobilização gigantesca não nasce do acaso. Ela é o resultado de um trabalho contínuo, de “formiguinha”, que a Comissão Semeadoras do Agro realiza ao longo do ano ao percorrer sindicatos rurais de ponta a ponta do estado. O que levamos à base não é um discurso abstrato de empoderamento, mas capacitação prática em gestão financeira, governança, inteligência de mercado e saúde preventiva — pilar essencial conduzido com rigor por iniciativas como o programa Semear é Cuidar.
A emancipação feminina no agro passa, obrigatoriamente, pela autonomia econômica e pela liderança na sucessão familiar. Quando uma mulher assume a administração da propriedade, ela profissionaliza os processos, agrega valor com inovação e transforma o entorno social de sua comunidade. O empreendedorismo feminino, nesse sentido, atua como a ferramenta mais poderosa de transformação social e dignidade pessoal, inclusive como escudo contra vulnerabilidades históricas.
Mas essa transformação estrutural não pode ficar confinada entre as cercas da fazenda. A grandiosidade do que construímos precisa ecoar e dialogar diretamente com os grandes centros urbanos. A sociedade que vive nas capitais precisa reconhecer com clareza os rostos, as mãos e a liderança por trás do alimento seguro, da bioenergia e da preservação ambiental que sustentam o país. Aproximar o campo da cidade é o único caminho para valorizar quem realmente produz.
São Paulo mostrou a força de uma rede que já transborda as divisas estaduais e inspira lideranças por todo o Brasil. Ver milhares de produtoras reunidas, debatendo tecnologia, mercado e liderança com olhar firme no futuro, deixa uma certeza inegociável: quando semeamos autonomia e conhecimento para as mulheres, colhemos um agronegócio muito mais moderno, humano e soberano.
Com carinho,
Juliana Farah, presidente da Comissão Semeadoras do Agro da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp)