Enquanto Brasília briga, quem vai plantar o Feijão?

Por: Rogério Cabral

O preço do feijão começou novamente a reagir no campo. É preciso dizer com clareza: já entramos em um período de inflação do prato feito. O feijão, por exemplo, está no maior preço registrado para um mês de setembro nos últimos dez anos, pelo menos.

Ainda não há uma explosão generalizada na gôndola, mas quem acompanha esse mercado sabe que a inflação da comida não começa no supermercado. Ela surge muito antes, quando o produtor decide se vai plantar, quanto vai plantar e se conseguirá assumir os riscos da atividade.

É exatamente aí que o Brasil está falhando.

Enquanto Brasília consome energia numa guerra aparentemente interminável entre direita e esquerda, a produção de alimentos básicos segue, em grande parte, entregue à própria sorte. O feijão talvez seja o melhor exemplo.

Não estou dizendo que não existe Plano Safra ou crédito rural. Existem. O problema é a falta de uma política consistente que responda à pergunta central: quem continuará produzindo os alimentos que o brasileiro precisa colocar diariamente no prato?

A soja tem mercado mundial. O milho tem múltiplos destinos. As grandes commodities contam com escala, liquidez e cadeias estruturadas.

E o feijão?

O produtor precisa decidir praticamente sozinho:

Planto ou não planto? Vai chover? Conseguirei crédito? O preço daqui a três ou quatro meses cobrirá os custos? Se houver seca, excesso de chuva ou geada, estarei protegido? Se a produção for grande e o preço desabar, o que acontecerá comigo?

O que está em jogo não é apenas a renda de quem planta. É segurança nacional.

Estamos falando de um dos alimentos mais importantes da mesa de mais de 200 milhões de brasileiros. Mesmo assim, a decisão de produzi-lo continua sendo tomada por milhares de agricultores que assumem quase sozinhos os riscos climático e de mercado.

Seguro rural insuficiente, crédito caro ou difícil de acessar, falta de previsibilidade e ausência de planejamento formam uma combinação perigosa. Quando produzir Feijão deixa de fazer sentido econômico, o produtor planta outra coisa.

Depois nos surpreendemos quando o preço sobe.

O roteiro é conhecido: primeiro diminui a disposição de plantar; depois a oferta se aperta; o preço reage no campo, passa pelo atacado e chega ao supermercado. Quando aparece nos índices de inflação, começam as reuniões emergenciais.

Mas os efeitos dessa falta de planejamento já estão presentes. A inflação do prato feito deixou de ser uma ameaça distante e começou a pesar no orçamento das famílias. O Feijão, no maior preço para setembro em pelo menos uma década, mostra que o problema já chegou à mesa do consumidor.

Quando o preço aparece na gôndola, a decisão que poderia ter evitado a alta foi tomada meses antes.

Feijão não pode continuar sendo tratado como emergência. Arroz também não.

Os alimentos que formam o prato feito brasileiro deveriam ser considerados infraestrutura estratégica do país.

O Brasil planeja petróleo, energia, defesa, fertilizantes e logística. Precisa tratar a produção de alimentos essenciais com a mesma seriedade.

Isso não significa tabelar preços ou garantir lucro ao produtor, mas criar condições para que ele continue disposto a plantar: seguro agrícola eficiente, crédito na hora certa, pesquisa, sementes, tecnologia, informação de mercado, instrumentos de comercialização e, acima de tudo, previsibilidade.

Brasília também parece subestimar a importância da comida acessível para a estabilidade de um país. A sociedade pode suportar por muito tempo disputas partidárias, conflitos ideológicos e crises políticas. Quando falta dinheiro para colocar comida na mesa, porém, a natureza da insatisfação muda.

A inflação de alimentos e a insegurança alimentar ampliam tensões econômicas e sociais. Por isso, é perigoso deixar a produção dos itens básicos depender do mercado, do clima e da coragem individual de quem planta.

Não quero ver o governo descobrindo a importância do feijão quando o consumidor encontrar um preço assustador na gôndola. É preciso agir agora, enquanto ainda há tempo para garantir que alguém plante.

Direita e esquerda podem continuar discutindo suas diferenças. Isso faz parte da democracia.

Mas feijão não é de direita nem de esquerda. Arroz também não. O prato feito brasileiro tampouco.

Governar significa antecipar problemas antes que cheguem à mesa da população. No caso do feijão, o problema já começou a chegar.

E não faltam medidas concretas. O Brasil deveria começar por seis decisões.

  • Primeiro: criar um programa permanente de seguro rural específico para os alimentos básicos, com orçamento protegido e contratação antes do plantio, sem depender de contingenciamentos e improvisos anuais.
  • Segundo: estabelecer linhas de crédito direcionadas para Feijão, arroz e outros alimentos essenciais, com recursos disponíveis no momento da decisão de plantar e condições compatíveis com a rentabilidade dessas culturas.
  • Terceiro: implantar um sistema nacional de planejamento de oferta. Governo, Conab, produtores, cooperativas, indústria e varejo deveriam acompanhar, antes de cada safra, área plantada, estoques, consumo e necessidade de abastecimento. Se houver risco de falta, o alerta precisa surgir antes do plantio, não depois que o preço dispara.
  • Quarto: construir instrumentos de proteção de renda e comercialização. O produtor não pode ser estimulado a aumentar a produção quando o preço está alto e depois ficar sozinho quando uma boa safra derruba as cotações.
  • Quinto: criar uma política nacional do prato feito, tratando Feijão, arroz e proteínas básicas como componentes estratégicos da segurança alimentar. Isso significa estimular produção, pesquisa e consumo, além de monitorar permanentemente o custo dessa refeição para as famílias brasileiras.
  • Sexto: criar um conselho permanente de segurança dos alimentos básicos, com participação do governo e da cadeia produtiva. O órgão deveria se reunir antes de cada plantio e apresentar cenários para os seis e doze meses seguintes.

Nada disso exige reinventar o Estado. Exige prioridade. Talvez esteja na hora de Brasília olhar menos para sua própria guerra e mais para o prato dos brasileiros.

A inflação do prato feito já começou. A segurança alimentar não começa no supermercado. Começa no campo, antes do plantio.

Marcelo Lüders é presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), e atua na promoção do feijão brasileiro no mercado interno e internacional