Daniela Marques aborda a autonomia financeira das mulheres rurais, analisa o impacto dos juros no endividamento das empresas e critica propostas de engessamento da jornada de trabalho
Por Portal do Agronegócio
A ex-presidenta da Caixa Econômica Federal, Daniela Marques, palestrou durante o evento Semeadoras do Agro sobre a importância da gestão financeira e a ocupação de espaços pelas mulheres no setor produtivo. Em sua apresentação, a executiva destacou que a aproximação feminina com temas ligados ao dinheiro é fundamental para garantir a segurança patrimonial e a independência das famílias rurais.
De acordo com a palestrante, a tomada de decisões financeiras cotidianas exige preparo técnico tanto para a condução de pequenos negócios quanto para o gerenciamento de grandes propriedades. A ex-gestora ressaltou que a presença de mulheres em ambientes de decisão traz perspectivas complementares para a solução de problemas complexos no campo. “Minha palestra é justamente para reforçar o papel da mulher como gestora da casa, como produtora, como aquela que cuida de todos, para que elas tenham segurança e se aproximem do tema para construir patrimônio”, considerou.
A atuação feminina na agricultura familiar e em grandes empreendimentos agropecuários ganha espaço em um ambiente historicamente dominado por homens. Durante a conferência, a palestrante salientou que a flexibilidade exigida pelo trabalho no campo exige das produtoras capacidade de organização para conciliar a rotina de cultivo com a administração familiar. A executiva observou que o mercado atual valoriza as profissionais rurais pela responsabilidade e pela visão diferenciada aplicada ao gerenciamento das propriedades. Para a palestrante, a busca por capacitação e o fortalecimento das vocações individuais abrem caminhos consolidados para a liderança no agronegócio nacional. “Quando você tem uma mulher na sala, ela muda as perguntas da sala, tem um olhar diferente, são vocações complementares e o espaço está aberto para as mulheres ocuparem”, declarou.
Além do foco na gestão feminina, a palestrante analisou o cenário macroeconômico atual e os reflexos da elevada taxa de juros real sobre as empresas brasileiras. Segundo os dados apresentados, a alta no custo das dívidas tem levado mais de seis mil companhias a recorrerem a processos de recuperação judicial e extrajudicial no país. A ex-presidenta da instituição financeira atribuiu esse panorama às diretrizes da política econômica vigente, argumentando que o desequilíbrio entre gastos públicos e arrecadação sobrecarrega a produção. O impacto do endividamento, de acordo com a análise prestada, atinge tanto grandes redes varejistas quanto pequenos e médios empreendimentos do setor agronegocial.
“A economia é uma ciência e a gente precisa colocar as contas no lugar, cortar os excessos, para que o Brasil volte a crescer e tire o peso da conta de juros das famílias e empresas”, ponderou.
A superação das dificuldades financeiras enfrentadas pelo setor produtivo exige, na avaliação da palestrante, uma reestruturação rigorosa do orçamento estatal e a contenção de despesas públicas. A executiva apontou a necessidade de reduzir gastos com mega-estruturas administrativas e privilégios no funcionalismo para viabilizar a queda dos juros no mercado nacional. Sem essas medidas de ajuste fiscal, a tendência é a manutenção de um ambiente adverso para o investimento privado e para a geração de empregos formais. A palestrante ressaltou que a recomposição da estabilidade monetária beneficia diretamente as famílias de menor renda e garante a sustentabilidade dos negócios rurais. “Quem gasta mais do que ganha se endivida, e a alta taxa de juros real no Brasil reflete no custo de dívida das empresas e das famílias, arrastando todos para esse cenário”, detalhou.
Outro ponto abordado durante a exposição tratou das discussões legislativas em torno da alteração da jornada de trabalho e o fim do modelo de seis dias de trabalho por um de descanso. A palestrante posicionou-se de forma contrária à imposição de um formato único de cinco dias de trabalho por dois de descanso, alegando que a medida retira a flexibilidade necessária em setores específicos. A restrição, segundo a executiva, prejudica serviços essenciais com regime de plantão e atividades agrícolas que dependem das condições climáticas para o plantio e a colheita. A manutenção de negociações flexíveis entre trabalhadores e empregadores foi defendida como a alternativa adequada para preservar a produtividade sem comprometer a renda. “A gente é a favor da liberdade, protegendo o direito, mas que tenham mais flexibilidade de modelo do que algo rígido que penaliza muito o setor produtivo”, salientou.
O impacto de normas trabalhistas rígidas na atividade agropecuária tende a ser elevado devido às especificidades temporais da produção no campo. Durante o encerramento da conferência, a palestrante reforçou que a imposição de regras uniformes ignora realidades regionais e regimes operacionais como as jornadas de escala em plataformas e colheitas sazonais. A flexibilização dos acordos de trabalho foi apontada como elemento crucial para garantir a competitividade das cadeias produtivas e a preservação dos postos de trabalho existentes. A ex-gestora concluiu destacando que o fortalecimento da autonomia dos trabalhadores e a simplificação regulatória são os caminhos viáveis para impulsionar o desenvolvimento econômico do país. “A hora que o governo intervém para ‘engessar’ em um único formato, tira a liberdade do trabalhador e isso traz um impacto gigantesco no campo”, comunicou.