Congresso Abag: Agro amplia acesso ao mercado de capitais, mas esbarra no seguro rural

Por: Rogério Cabral

O mercado de capitais já responde por cerca de 30% do financiamento do agronegócio brasileiro, com instrumentos como CRAs, Fiagros e CPRs ganhando espaço. Mas o avanço desse mercado ocorre em um momento de ajustes, com investidores mais atentos aos riscos e um problema antigo ainda sem solução: a baixa cobertura do seguro rural. O tema foi discutido no 25º Congresso Brasileiro do Agronegócio, promovido pela Abag.

Um dos exemplos da expansão é o Fiagro. Em quatro anos, o instrumento chegou a cerca de 600 mil investidores, ampliando o acesso de pessoas físicas ao financiamento do setor. A diferença em relação ao valor médio de entrada do CRA ajuda a explicar esse movimento.

“Hoje, no CRA, o valor do ticket médio é de R$ 43 mil. O Fiagro é de R$ 1 mil. Então, a gente criou um instrumento acessível, democrático e simples”, afirmou Fabiana Perobelli, superintendente de Relacionamento com Clientes da B3.

Segundo ela, o momento atual também exige que o mercado dê mais transparência às operações. Depois de episódios que aumentaram a percepção de risco entre investidores, a tendência é de uma reação natural nos volumes negociados e nas emissões até que fique mais claro o que está acontecendo.

“Quanto mais rápido a gente consegue ter transparência sobre o que está acontecendo, a gente consegue isolar os efeitos. Esse efeito realmente está caracterizado nessa emissão ou nessa empresa e não é um efeito sistêmico”, explicou.

Para Fabiana, o avanço dos registros e da quantidade de informações disponíveis ajuda a reconstruir essa confiança. “Quanto mais rápido a gente consegue entender a operação, acho que a gente evolui e volta à normalidade de preços, de volume negociado e de emissões”, afirmou.

Seguro rural é o elo mais frágil

Enquanto o mercado de capitais amplia suas alternativas, o produtor continua altamente exposto aos eventos climáticos. Dados apresentados por Monique Cardoso, superintendente de Sustentabilidade da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), mostram que a cobertura do seguro rural caiu de um pico de 16% para cerca de 3%. Hoje, menos de 100 mil produtores possuem apólices contratadas.

O número chama atenção diante do peso do agronegócio na economia.

“A gente chegou num nível muito baixo de proteção securitária do produtor rural. A gente tem um quarto da economia sem nenhuma proteção. É isso que está acontecendo”, afirmou Monique.

A vulnerabilidade aumenta porque o produtor compromete grande parte do capital a cada safra. Quando uma seca, enchente, geada ou outro evento extremo destrói a produção, o impacto chega diretamente à renda e à capacidade de pagamento.

Os reflexos já aparecem no crédito. Dos quase 2 mil casos recentes de recuperação judicial no agronegócio, mais de 60% apontam eventos climáticos, principalmente secas severas, entre os principais fatores para a crise de liquidez.

Seguro pode proteger também o investidor

Nesse cenário, o seguro rural deixa de ser apenas uma proteção para o produtor e passa a funcionar também como mecanismo de redução de risco para o mercado de capitais.

A lógica é que uma produção protegida reduz a possibilidade de inadimplência nas carteiras de recebíveis que dão origem a operações como os CRAs.

“O seguro é um instrumento e uma ferramenta muito potente para gestão e mitigação de risco. Se ele estivesse presente numa carteira de recebíveis ali dentro do CRA, imagina a confiança do grande investidor que vai comprar os títulos. Aumenta bastante, porque a produção está protegida”, explicou Monique.

Para Flavia Palacios, diretora da Anbima, o mercado financeiro já dispõe de instrumentos regulatórios e de fiscalização robustos para ampliar essa conexão. O desafio está em garantir que o risco seja adequadamente tratado na origem.

As painelistas também defenderam a modernização do seguro rural, incluindo o Projeto de Lei 29/2025, que busca dar mais estabilidade ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR).