Os frigoríficos brasileiros estão reduzindo o ritmo de produção e concedendo férias coletivas em algumas unidades após o esgotamento da cota de importação de carne bovina brasileira sem tarifa pela China. Segundo o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, o setor vive um período de adaptação diante da redução das compras pelo principal destino da carne bovina nacional.
Neste ano, a China estabeleceu uma cota de aproximadamente 1,106 milhão de toneladas de carne bovina brasileira com tarifa reduzida. No ano passado, o Brasil exportou cerca de 1,7 milhão de toneladas para o país asiático. Após o esgotamento desse limite, as importações passam a pagar uma tarifa total de aproximadamente 67%, tornando inviável a exportação da maior parte dos cortes brasileiros.
Férias coletivas como estratégia
Perosa explicou que as férias coletivas anunciadas por alguns frigoríficos são consequência direta da redução da demanda chinesa, mas ressalta que a intensidade dos ajustes varia conforme o perfil de cada empresa.
“O que houve foi uma consequência das imposições que estamos sofrendo da China. Como não existe outro destino capaz de absorver esse volume de produção, cada empresa está adotando as medidas mais adequadas à sua realidade.”
Segundo ele, frigoríficos com maior diversificação de mercados conseguiram apenas reduzir o ritmo de produção. Já aqueles mais dependentes da China precisaram interromper parte das atividades.
“Aqueles que têm maior capacidade de atender outros mercados diminuíram um pouco a produção. Já aqueles que não têm tantos destinos para enviar suas cargas estão reduzindo a produção e concedendo férias coletivas em algumas plantas.”
Exportações devem perder volume
O presidente da Abiec reconhece que será difícil compensar a redução das compras chinesas no curto prazo.
“Vai afetar o volume das exportações, porque o volume consumido pela China é muito grande. Estamos tentando mitigar esse impacto com novos mercados, mas é muito improvável atingir o mesmo volume.”
Segundo Perosa, a entidade defendia anteriormente a adoção de um mecanismo semelhante de gestão da oferta no Brasil justamente para evitar uma situação como a atual.
“Infelizmente isso não foi possível e agora teremos, nos próximos meses, um arrefecimento das exportações em razão da redução das compras chinesas.”
Cota deve ser atingida quando cargas chegarem à China
Embora parte da carne ainda esteja em trânsito, Perosa afirma que, na prática, o limite já foi alcançado.
“O Brasil praticamente já enviou todo o volume correspondente à cota. O que acontece é que existe um intervalo de 40 a 60 dias entre o embarque no Brasil e a chegada da carga à China. Quando esses embarques forem contabilizados, a cota estará esgotada.”
Segundo ele, a produção destinada ao mercado chinês já foi interrompida.
“As exportações pararam para a China porque nós deixamos de produzir animais destinados a esse mercado. Elas deverão ser retomadas quando houver condições comerciais para isso.”
Após o limite da cota, a tarifa atualmente aplicada às importações brasileiras aumenta significativamente.
“A China hoje cobra cerca de 12% de tarifa. Depois que a cota é atingida, acrescentam-se mais 55%, chegando a aproximadamente 67%, um valor impraticável para a maioria dos cortes brasileiros.”
Segundo Perosa, apenas alguns produtos específicos poderiam continuar sendo exportados com essa tributação, mas em volumes muito inferiores aos praticados atualmente.
Novos mercados
Para reduzir a dependência da China, a Abiec intensifica as negociações para abertura e ampliação de novos mercados.
Perosa cita o Vietnã, recentemente aberto às exportações brasileiras, além de Japão, Coreia do Sul e Turquia como os principais alvos.
“São negociações complexas, conduzidas pelo Ministério da Agricultura, com apoio da Abiec. Nosso objetivo é diversificar a pauta exportadora para reduzir a dependência de poucos compradores.”
Além da China, a entidade acompanha com atenção as negociações com a União Europeia, que discute novas exigências relacionadas ao sistema brasileiro de fiscalização sanitária.
“O questionamento da União Europeia não é sobre o nosso sistema de produção, mas sobre a fiscalização. O Ministério da Agricultura está demonstrando que o Brasil já possui mecanismos eficazes de controle.”
Segundo Perosa, a expectativa é que as negociações avancem até setembro, permitindo a manutenção do fluxo comercial com o bloco europeu.
Arroba já sente os reflexos
O presidente da Abiec afirma que o mercado do boi gordo já começou a reagir à redução das exportações.
“A arroba já sentiu esse movimento. Houve um recuo nos últimos dias porque a indústria não tem onde alocar todo esse volume e reduziu o ritmo de produção.”
Apesar disso, ele acredita que o mercado encontrará um novo ponto de equilíbrio.
“Esperamos que a arroba estabilize. Não há motivo para correria ou desespero. Ela deve encontrar um novo patamar, diferente do observado há 15 ou 30 dias.”
Segundo Perosa, o momento exige cautela enquanto frigoríficos e exportadores reorganizam a produção e buscam ampliar a participação em outros mercados.
“As indústrias estão atravessando um período de adaptação, buscando equilibrar o abastecimento do mercado interno com a abertura de novos destinos para parte da carne que deixará de ser embarcada para a China.”