Plano Safra enfrenta o desafio de levar crédito ao campo em meio a dívidas e tensões globais

Por: Rogério Cabral

Ferramentas de crédito bem aplicadas são alternativas coerentes para enfrentar situações de risco.

O anúncio do Plano Safra 2026/27, esperado para esta terça (30/6), ocorre em um momento particularmente delicado para o agronegócio brasileiro. A combinação entre juros elevados, aumento do endividamento rural e incertezas provocadas pelo cenário internacional transformou o acesso ao crédito em uma das principais preocupações do setor às vésperas do início de mais uma temporada de produção.

Embora a expectativa seja de um novo incremento nos recursos destinados ao financiamento agropecuário, a discussão dentro do mercado já não está concentrada apenas no volume anunciado pelo governo. O foco passou a ser a capacidade efetiva de esses recursos chegarem ao campo em um ambiente de maior cautela por parte das instituições financeiras.
“O Plano Safra é um instrumento fundamental para o agronegócio, mas a necessidade de recursos do setor é muito superior ao que tradicionalmente é disponibilizado. O agro brasileiro demanda algo entre R$ 1,2 trilhão e R$ 1,3 trilhão por ano para financiar suas operações”, afirma Wolney Arruda, CEO da Plantae Agrocrédito.

A diferença entre a demanda por capital e a oferta de recursos ocorre em um momento de crescente preocupação com o endividamento rural. Segundo Arruda, o estoque de dívidas do setor se aproxima de R$ 800 bilhões, cenário que tem levado bancos e agentes financeiros a reforçar critérios de análise, garantias e capacidade de pagamento. “O produtor vive um paradoxo. Ele precisa de crédito para manter a atividade e financiar a próxima safra, mas muitas vezes já carrega obrigações relevantes contratadas em ciclos anteriores. Ao mesmo tempo, as instituições financeiras precisam encontrar mecanismos para financiar o novo ciclo sem ignorar esse passivo.”

O desafio ganha relevância adicional diante de uma taxa Selic de 14,25% ao ano. Embora o mercado trabalhe com a expectativa de cortes graduais ao longo do segundo semestre, o custo do financiamento continua pressionando decisões de investimento dentro das propriedades.
“A principal palavra neste momento é disciplina. O crédito precisa estar conectado à capacidade de geração de receita da fazenda. O produtor precisa olhar para fluxo de caixa, custo de produção e capacidade de pagamento antes de assumir novas obrigações.”

O ambiente também evidencia uma transformação estrutural no financiamento agropecuário. Se o crédito subsidiado foi durante décadas a principal fonte de recursos do setor, a expansão da produção brasileira passou a depender cada vez mais da participação do mercado privado.
“Hoje não existe uma disputa entre crédito subsidiado e crédito privado. Eles são complementares. O recurso oficial continua sendo importante, mas não consegue atender sozinho toda a demanda do agronegócio”, explica.

Enquanto o setor acompanha as definições do Plano Safra, outro fator passou a ocupar espaço crescente nas preocupações de produtores e investidores: a geopolítica.

O agravamento das tensões no Oriente Médio elevou a atenção sobre possíveis impactos em cadeias estratégicas para o agronegócio, especialmente energia, logística e fertilizantes. O Estreito de Hormuz, uma das principais rotas do comércio global, tornou-se um dos pontos de monitoramento mais relevantes para o mercado.

O maior risco para o segundo semestre é a geopolítica. O produtor sabe conviver com o clima. O mercado sempre terá ciclos de alta e baixa. A geopolítica tem a capacidade de mexer com tudo ao mesmo tempo.

Segundo Arruda, cerca de um terço dos fertilizantes comercializados globalmente passa pela região do Estreito de Hormuz. Embora isso não signifique necessariamente desabastecimento, aumenta a volatilidade dos mercados e reduz a previsibilidade para quem está planejando a próxima safra.

“O problema não é apenas a possibilidade de falta de produto. O principal impacto é a incerteza. Petróleo, fertilizantes, logística e inflação passam a responder rapidamente a qualquer mudança de cenário”, conceitua.

Essa combinação de fatores reforça a importância da gestão de risco dentro das propriedades rurais. Seguro rural, proteção de preços, hedge, planejamento de compras e controle rigoroso do fluxo de caixa ganham relevância em um ambiente marcado por custos financeiros elevados e maior volatilidade internacional.

“O produtor precisa buscar previsibilidade. Hoje, proteger margens é tão importante quanto aumentar produtividade. Quem conseguir administrar melhor seus riscos terá uma posição mais sólida independentemente do cenário que venha pela frente”, afirma o CEO.

Às vésperas do novo Plano Safra, o agronegócio brasileiro entra no segundo semestre diante de uma equação mais complexa do que em ciclos anteriores. Mais do que ampliar produção, o desafio passa a ser preservar rentabilidade e capacidade de investimento em um ambiente onde juros, crédito e geopolítica passaram a influenciar diretamente os resultados dentro da porteira.