2026 e os Maiores Desafios do Agro

Por: Tirso Meirelles

Por Tirso Meirelles, presidente do Sistema Faesp/Senar

O ano de 2026 se anuncia como um dos mais desafiadores para o setor agropecuário brasileiro. A combinação entre previsão de escassez hídrica, juros elevados e a ausência de uma política agrícola de longo prazo cria um cenário de incerteza que compromete a continuidade dos investimentos, a segurança produtiva e a competitividade do país no mercado internacional.

O agro — responsável por mais de um quarto do PIB e por uma parcela expressiva das exportações — entra em 2026 com a sensação de que precisa superar obstáculos estruturais sem o respaldo institucional que deveria garantir estabilidade e proteção em momentos críticos.

A perspectiva de restrição hídrica, amplamente apontada por centros meteorológicos e entidades de pesquisa, ameaça diretamente a produtividade e a rentabilidade das principais cadeias agropecuárias. Sem previsibilidade sobre a disponibilidade de água, o produtor hesita em ampliar áreas, adotar novas tecnologias ou investir em cultivos mais exigentes.

A irrigação, que poderia ser uma alternativa estratégica, esbarra em entraves regulatórios, custos elevados e insegurança sobre o uso dos recursos hídricos.

O resultado é um campo que precisa produzir mais com menos, sob maior pressão climática e com margens cada vez mais apertadas. Em vez de política pública consistente, o produtor encontra um mosaico fragmentado de programas temporários e insuficientes.

A taxa de juros elevada agrava ainda mais esse quadro. Em um setor em que o ciclo produtivo é longo e os investimentos são robustos, o crédito agrícola torna-se um instrumento vital para garantir expansão e modernização. Entretanto, com linhas cada vez mais caras, muitos produtores — sobretudo pequenos e médios — enfrentam dificuldade para financiar custeio, aquisição de insumos e reposição de máquinas.

A travessia financeira se torna árida: cresce o risco de endividamento, diminui a capacidade de planejamento e se instala um ambiente de retração, prejudicando a adoção de tecnologias que poderiam elevar a produtividade e mitigar impactos climáticos. Juros altos, historicamente, são um freio para a economia; no agro, tornam-se um bloqueio direto à produção.

Mas o ponto mais sensível do debate é a ausência de uma política agrícola de longo prazo, com recursos robustos e estáveis, capazes de atender verdadeiramente às demandas do setor.

O Brasil ainda depende de planos sazonais, renegociações emergenciais e programas que mudam a cada ciclo político. Falta uma estratégia contínua de Estado, e não de governo, que assegure previsibilidade, equilíbrio e mecanismos sólidos de proteção ao produtor. Sem isso, o agro opera sob constante insegurança, adaptando-se como pode aos ventos políticos e econômicos, quando deveria contar com diretrizes claras para planejar décadas à frente.

Nesse contexto, o seguro rural é o símbolo mais evidente da fragilidade estrutural. Ao contrário de países desenvolvidos, onde seguros amplos e subsidiados permitem que o produtor enfrente eventos climáticos extremos sem comprometer sua sobrevivência econômica, o Brasil segue na contramão. Em vez de ampliar a adesão, há uma queda acentuada no volume de contratações, impulsionada por cortes orçamentários, redução de subvenções e falta de políticas claras de incentivo. Sem seguro, o produtor volta à condição de vulnerabilidade total, confiando mais na fé, na resiliência e em práticas tradicionais do que na proteção institucional. Trata-se de um retrocesso perigoso para um país cuja base econômica depende diretamente da estabilidade no campo.

Os desafios de 2026 exigem mais do que discursos otimistas: requerem ação técnica, visão estratégica e compromisso com o futuro do agro. O produtor rural não pede privilégio — pede condições mínimas de segurança, previsibilidade e apoio para continuar produzindo alimentos, energia e riqueza para o país. Se o Brasil deseja manter seu protagonismo mundial, precisa compreender que o campo não pode enfrentar sozinho um cenário de clima imprevisível, juros sufocantes e ausência de políticas estruturantes. É hora de transformar preocupação em política pública e desafios em planejamento. O futuro do agro — e da própria economia nacional — depende disso.

 

 

 

 

 

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